
Chamas e fumaça diante da Torre Eiffel em protesto em Paris (Foto: Instagram)
O ministro da Justiça francês, Gérald Darmanin, reconheceu nesta segunda-feira (19) que as autoridades “sem dúvida falharam” diante da onda de violência e saques que marcaram o fim de semana na França. Ele apontou deficiência dos serviços de inteligência, pouco preparados para monitorar grupos de ultraesquerda, e prometeu uma resposta “severa” da Justiça aos responsáveis pelos ataques. O movimento dos coletes amarelos, por sua vez, já convocou nova manifestação para o sábado (24).
As manifestações contra o alto custo de vida reuniram cerca de 550 mil pessoas em todo o país, segundo o Ministério do Interior, e deixaram 2.331 detidos. Deste total, aproximadamente 70% são maiores de idade e mais de 80% dos casos já viraram processos judiciais. Dezenas de suspeitos foram colocados em prisão preventiva, incluindo 13 em Marselha. Na capital da região, a prefeitura de polícia proibiu encontros e passeatas nesta segunda-feira entre 12h e 20h, em decorrência dos episódios de violência.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, também admitiu falhas no planejamento e na gestão das forças de segurança, destacando perda de controle em grandes cidades. Os protestos, iniciados em setembro pelos secundaristas por melhorias no ensino, ganharam nova intensidade no sábado. Em Paris, tumultos na Praça da República resultaram em 350 detenções e cerca de 30 lojas saqueadas até a madrugada de segunda.
Em resposta ao impacto dos distúrbios, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu convocou uma célula interministerial de crise nesta terça para tratar de três eixos principais: economia e comércio, seguros e acompanhamento judicial. Além disso, recebeu de Emmanuel Macron a missão de reunir partidos, centrais sindicais, autoridades locais e parlamentares para buscar soluções. As autoridades estimam que até 30 mil pessoas participaram de atos de vandalismo no sábado.
Segundo o governo, 60 mil policiais e gendarmes foram mobilizados no sábado, número inferior ao de outras grandes mobilizações. Apesar das críticas, Macron rejeitou o pedido de demissão apresentado por Nuñez, argumentando que manter a continuidade do comando das forças de segurança era essencial. O presidente classificou a violência como “desenfreada” e a atribuiu a grupos radicalizados de ultraesquerda e a delinquentes, afirmando que ataques a prédios públicos são uma “agressão direta à República”.
A oposição, a seis meses da eleição presidencial, responsabiliza Macron pela crise. Partidos de esquerda acusam o governo de ignorar as reivindicações dos manifestantes, enquanto a direita cobra postura mais dura. O prefeito de Paris, Emmanuel Grégoire, criticou o “processo de deterioração” do movimento social, e Jordan Bardella, do RN, afirmou que o poder público “abandonou suas responsabilidades”. O candidato de esquerda Raphaël Glucksmann alertou para o risco de o caos beneficiar Marine Le Pen. A porta-voz Maud Bregeon rebateu que “os primeiros responsáveis são os vândalos”, mas acusou a França Insubmissa de ter responsabilidade moral pelos incidentes.
O impacto econômico foi expressivo: mais de 2 mil lojas foram atingidas e os prejuízos ultrapassam centenas de milhões de euros, segundo a federação das Câmaras de Comércio e Indústria. O ministério do Comércio, com Serge Papin, discute medidas emergenciais como aceleração de indenizações, linhas de crédito a juros reduzidos, regime de trabalho com jornada reduzida e moratória fiscal. O banco Crédit Agricole já liberou suspensão de parcelas de empréstimos, crédito de até 20 mil euros a 2,5% de juros e substituição gratuita de máquinas de pagamento danificadas.
Apesar dos incidentes, a maioria dos atos ocorreu de forma pacífica. Além dos 550 mil manifestantes do governo, a central sindical CGT estimou 800 mil participantes em todo o país, sendo 110 mil só em Paris.



