
Fachada do Banco Central em Brasília ressalta cautela do Copom diante da inflação (Foto: Instagram)
Os dados de abril do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial no Brasil, destacam a postura cautelosa do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central em relação à taxa básica de juros, a Selic.
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Essa é a percepção predominante entre economistas e analistas consultados pelo Metrópoles, logo após o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar os números na manhã de hoje.
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Segundo o IBGE, a inflação no Brasil foi de 0,67% em abril, desacelerando em relação a março (0,88%). No acumulado de 12 meses até abril, o IPCA atingiu 4,39%, acelerando em comparação aos 4,14% de março.
A expectativa média dos analistas era de uma inflação mensal de 0,7% e anual de 4,41%.
O Conselho Monetário Nacional (CMN) estabeleceu a meta de inflação deste ano em 3%, com um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, o que significa que ela será cumprida se ficar entre 1,5% e 4,5%.
Os grupos de alimentação e bebidas e saúde e cuidados pessoais, que inclui medicamentos, foram os principais responsáveis pela inflação, registrando aumentos de 1,34% e 1,16%, respectivamente. O grupo de transportes apresentou um alívio, com um índice menor do que o de março.
O economista André Valério, do Banco Inter, afirma que, apesar da desaceleração da inflação em relação a março, "o qualitativo não foi muito positivo". Ele observa que a média dos núcleos subiu de 0,43% para 0,5%, mantendo a tendência de alta e sugerindo o fim dos ganhos na desinflação do núcleo, com o acumulado em 12 meses praticamente estável. A inflação de serviços desacelerou de 0,53% para 0,04%, principalmente devido à queda nas passagens aéreas. Sem esse item, a desaceleração foi menos intensa, de 0,41% para 0,37%.
Valério também destaca que "a inflação de serviços subjacente, menos sensível à política monetária, acelerou de 0,49% para 0,52%". Ele menciona ainda o comportamento da inflação de bens industriais, que subiu de 0,31% para 0,62%, sendo afetada pelo choque do petróleo e podendo deixar de ser uma força deflacionária este ano.
Para o economista, "o resultado do mês mantém a necessidade de cautela no Copom". Ele comenta que, apesar da desaceleração, ainda existem fatores que exigem cuidado na política monetária, como a indefinição sobre a guerra, que já dura quase três meses, e pode impactar os preços. Além disso, a perspectiva de El Niño no segundo semestre pode afetar negativamente a inflação de alimentos e energia. Ele prevê que o IPCA acumule alta de 4,9% este ano, mas vê condições para o Copom continuar ajustando os juros, com expectativa de novo corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião.
Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, afirma que o dado de abril confirmou que a inflação continua pressionada por alimentos, combustíveis e medicamentos. Ele destaca que a gasolina, com alta de 1,86%, foi o item de maior impacto individual no IPCA, contribuindo com 0,10 ponto percentual, e que, apesar de desacelerar em relação a março, o combustível ainda reflete a alta do petróleo no mercado internacional.
Spyer acrescenta que "o dado qualitativo não foi tão benigno", com a média dos núcleos subindo para 0,50%, acima dos 0,44% de março e da expectativa de 0,43%. Isso indica que a inflação subjacente permanece resistente. Por outro lado, a difusão caiu de 67,4% para 65,3%, sinalizando uma leve melhora na disseminação das altas.
Para o Banco Central, segundo Spyer, o recado é claro. "Apesar da desaceleração do índice cheio, os núcleos continuam pressionados e as expectativas seguem desancoradas. Isso reforça a postura cautelosa do Copom", avalia. Ele menciona que o mercado ainda vê espaço para cortes adicionais da Selic, mas em ritmo mais moderado, de 0,25 ponto percentual por reunião, e que uma pausa no ciclo não está descartada, dependendo da evolução do petróleo, câmbio e expectativas.
Natalie Victal, economista-chefe da SulAmerica Investimentos, afirma que os dados corroboram a visão de que uma aceleração nos cortes de juros é improvável. O cenário reforça a tese de um ciclo curto, com expectativas desancoradas e choques de oferta, elevando o risco para a Selic terminal, estimada em 14%. O BC deve manter a estratégia de "ganho de tempo", usando a Selic restritiva para absorver a volatilidade. O balanço de riscos continua desafiador, com a atividade econômica resiliente impedindo uma convergência mais rápida da inflação à meta.
Victal complementa que o dado reforça a necessidade de cautela e que o debate agora é sobre "onde parar", com uma crescente probabilidade de interrupção precoce do ciclo se a desinflação de serviços não ganhar força.
Gabriel Pestana, economista sênior da Genial Investimentos, destaca que a composição foi pior do que o esperado, com os núcleos vindo acima do projetado e mostrando um quadro de pressão mais disseminado do que o número cheio sugere.
Na última reunião do Copom, no final de abril, a autoridade monetária reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano. A taxa básica de juros é o principal instrumento dos bancos centrais para controlar a inflação. Quando os juros são mantidos elevados, o objetivo é conter a demanda aquecida, refletida nos preços, já que juros mais altos encarecem o crédito e incentivam a poupança, podendo também conter a atividade econômica.



