Conversar com uma inteligência artificial após um dia difícil tem se tornado comum. As respostas rápidas, frases acolhedoras e até tentativas de humor fazem parecer que a máquina entende o que dizemos. Mas, segundo especialistas, essa é uma ilusão de compreensão: a IA não sente, não pensa e não interpreta, portanto, nunca poderá ocupar o papel de um psicanalista humano.
A professora Monah Winograd, da PUC-Rio, explica que os algoritmos podem simular a linguagem humana, mas carecem de consciência, desejo e afeto — pilares fundamentais da prática psicanalítica. Em artigo publicado no The Conversation, ela afirma que a IA apenas executa comandos programados e manipula dados sintáticos, sem compreender o sentido real das palavras.
“A psicanálise existe no espaço entre palavras, no gesto simbólico, no afeto compartilhado. Ela não pode ser reduzida a um algoritmo”, destaca Winograd.
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O “iPsicanalista” e a ilusão da escuta digital
A pesquisadora chama de “iPsicanalista” a tentativa de transformar chatbots em substitutos de terapeutas. Assim como o “iPaciente”, que traduz emoções em dados e gráficos, o “iPsicanalista” reduz o sofrimento humano a informações quantificáveis.
Na psicanálise, o ato de ouvir vai muito além de processar linguagem: envolve reconhecer silêncios, pausas, gestos e afetos — algo que nenhum algoritmo é capaz de captar. “A IA não se afeta, não interpreta e não se relaciona simbolicamente. Ela apenas reproduz padrões de fala aprendidos em bancos de dados”, explica a autora.
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Ética e privacidade em debate
A discussão chegou ao Conselho Federal de Psicologia (CFP), que criou em 2025 um grupo de trabalho para analisar o uso de inteligências artificiais em contextos terapêuticos. O órgão expressa preocupações éticas e de privacidade, já que conversas com esses sistemas envolvem dados sensíveis que podem ser armazenados ou expostos indevidamente.
O CFP defende que somente tecnologias desenvolvidas e supervisionadas por profissionais da psicologia, com base em métodos cientificamente reconhecidos, devem ser utilizadas — e sempre como ferramentas complementares, nunca como substitutas do vínculo humano.
No fim das contas, por mais sofisticados que sejam os algoritmos, nenhum código é capaz de compreender o inconsciente ou oferecer uma escuta verdadeiramente humana.
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