Marulho, um termo que evoca o som do mar, sempre foi algo próximo ao coração da oceanógrafa Beatriz Mattiuzzo, de 29 anos. Em 2018, após se formar, Beatriz partiu para a Ilha Grande, em Angra dos Reis (RJ), para atuar como instrutora de mergulho. Ao longo do tempo, ela percebeu o impacto negativo do descarte inadequado de redes de pesca no meio ambiente e na comunidade local. Com essa preocupação, Beatriz e o oceanógrafo Lucas Gonçalves, de 32 anos, fundaram a Marulho em 2020. Esta iniciativa socioambiental resgata redes abandonadas nas praias e no oceano, transformando-as em embalagens, bolsas, pochetes e até cestas de frutas.
Além dos fundadores e de dois membros fixos, Samara Oliveira e Daniele Maia, a Marulho conta com uma equipe de 20 moradores de Ilha Grande, incluindo costureiras e redeiros, que participam diretamente da produção. Em 2023, o projeto recuperou 2.416 quilos de redes, convertendo-os em 23.827 produtos sustentáveis e gerando R$ 216 mil em renda adicional para a comunidade local.
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Beatriz Mattiuzzo, em entrevista à PEGN, destacou a poluição marinha causada pelo intenso tráfego de embarcações na região. “Ilha Grande é um lugar que joga bastante na nossa cara as desigualdades do Brasil. Angra dos Reis recebe muitos barcos de fora, o que traz muitas redes de pesca. Os barcos pegam só as partes boas [frutos do mar] e deixam os resíduos marinhos aqui. Mas as redes são sujas, pesadas e fedidas. [As grandes empresas] não têm a preocupação em reciclar esse material”, reflete.
Motivados a diminuir a poluição marinha e fomentar a economia local, Beatriz e Lucas desenvolveram um plano de negócios. Eles apresentaram a proposta ao Seu Filhinho, um dos pescadores mais antigos da região, hoje com 88 anos, e conseguiram o apoio das costureiras e redeiros locais. “A Marulho sempre foi pensada para ser um modelo em que a própria venda de produtos finais conseguisse manter a empresa. Foi o Seu Filhinho, pescador aposentado, que primeiro embarcou nessa com a gente. Foi por meio do conhecimento caiçara dele de costurar as redes que chegamos até aqui, e entendemos que precisamos valorizar isso. Porque preservar esse saber cultural único, empoderar a comunidade, reutilizar o plástico existente e evitar o plástico futuro é a coisa mais linda que tem”, conta Beatriz.
Atualmente, a Marulho produz brindes ecológicos corporativos e diversos produtos, como bolsas, sacolas e ecobags. Segundo Beatriz, 60% da receita vem do B2B, 30% do e-commerce para pessoas físicas e 10% de lojas colaborativas. Em 2023, o faturamento atingiu R$ 450 mil. “Nesse primeiro semestre de 2024, faturamos em torno de R$ 30 mil por mês. Mas, no segundo semestre, isso costuma subir para R$ 50 mil, devido às festas de fim de ano, com a demanda por brindes sustentáveis”, reforça. Neste ano, a empresa recebeu um aporte de R$ 500 mil da Fundação Banco do Brasil.
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O modelo de negócios da Marulho é alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especificamente aos ODS 14, 12 e 8, que tratam da Vida na Água, Consumo e Produção Responsáveis, e Trabalho Decente e Crescimento Econômico, respectivamente.
Para o futuro, Beatriz espera que seu modelo de negócios inspire outros empreendedores caiçaras a combater os impactos negativos da pesca fantasma e do abandono de redes plásticas no ambiente marinho. “A gente entende que a Marulho é um negócio replicável. Estamos num processo de descentralização da gestão, que antes ficava apenas comigo. Estamos capacitando pessoas aqui da comunidade para gerir isso, e também estamos começando a pensar em outras comunidades caiçaras que possam executar o mesmo trabalho”, encerra.
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