Um estudo recente sugere que células da mãe podem permanecer no cérebro dos filhos por décadas, possivelmente durante toda a vida. A pesquisa investigou o chamado microquimerismo materno, fenômeno em que pequenas quantidades de células geneticamente diferentes passam de um organismo para outro durante a gestação.
Os resultados indicam que, ao longo da gravidez, algumas células maternas conseguem atravessar a placenta e se estabelecer no cérebro do feto. A descoberta amplia o conhecimento sobre a troca celular entre mãe e bebê, já que pesquisas anteriores já haviam demonstrado que mulheres podem manter células dos filhos no organismo muitos anos após a gravidez.
O trabalho foi divulgado na plataforma científica bioRxiv, onde são publicados estudos ainda não revisados por especialistas.
Análise identificou células maternas em grande parte das amostras
Para investigar o fenômeno, cientistas liderados por Sami Kanaan, do Fred Hutchinson Cancer Center, nos Estados Unidos, analisaram tecidos cerebrais de 37 crianças submetidas a cirurgias para tratamento de epilepsia grave. O DNA das mães também foi examinado para comparação.
As análises mostraram que 26 das 37 crianças (cerca de 70%) apresentavam células de origem materna em diferentes regiões do cérebro, incluindo os lobos frontal, temporal e parietal, além do hipocampo, estrutura fundamental para a formação da memória.
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Células permanecem ativas no cérebro
Os pesquisadores utilizaram uma técnica de sequenciamento de RNA para entender o comportamento dessas células. Os resultados indicam que elas permanecem biologicamente ativas e são capazes de se transformar em diferentes tipos celulares presentes no cérebro.
Entre eles estão:
- neurônios;
- astrócitos;
- oligodendrócitos;
- células da microglia, responsáveis pela defesa imunológica do sistema nervoso;
- células endoteliais, que revestem os vasos sanguíneos.
Evidências também apareceram em cérebros de adultos
Em uma segunda etapa, a equipe analisou amostras cerebrais de autópsias de 32 pessoas sem doenças neurológicas conhecidas, com idades que variavam desde um feto de 22 semanas de gestação até indivíduos com mais de 90 anos.
Células geneticamente distintas foram encontradas em 25 dos 32 cérebros analisados, o equivalente a cerca de 78% das amostras. Como o DNA das mães não estava disponível nessa fase da pesquisa, os cientistas não puderam confirmar a origem dessas células, mas consideram o microquimerismo materno a explicação mais provável.
Além disso, observaram que, nos cérebros mais jovens, essas células tendem a se diferenciar principalmente em neurônios. Já em indivíduos mais velhos, predominavam células da microglia, relacionadas à resposta imunológica do cérebro.
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Papel dessas células ainda é desconhecido
Embora os resultados indiquem que as células maternas possam persistir ao longo da vida, os pesquisadores destacam que ainda não é possível determinar sua função exata.
Entre as hipóteses investigadas estão uma possível participação no desenvolvimento cerebral, na resposta imunológica ou até na influência sobre doenças neurológicas. No entanto, essas possibilidades ainda precisam ser confirmadas em novas pesquisas.
Os autores ressaltam que o estudo ainda não passou pelo processo de revisão por pares, etapa fundamental da validação científica, e que os resultados devem ser interpretados com cautela até que sejam confirmados por novas investigações.
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