A chamada “ameba comedora de cérebro” costuma ganhar atenção pontual da mídia, mas especialistas alertam que ela é apenas uma parte de um problema maior. Com o avanço das mudanças climáticas, diferentes espécies de amebas de vida livre estão encontrando condições cada vez mais favoráveis para se espalhar — um cenário que pode representar novos desafios à saúde pública em diversas regiões do mundo.
Esses microrganismos unicelulares vivem naturalmente no solo e em ambientes aquáticos, desde pequenas poças até lagos e rios. Embora muitas espécies sejam inofensivas, algumas têm a capacidade de invadir tecidos humanos e provocar infecções graves. O aumento das temperaturas médias amplia o território onde essas amebas conseguem sobreviver, elevando a exposição humana, especialmente em áreas de lazer com água doce.
A pesquisadora Manal Mohammed, especialista em microbiologia médica da Universidade de Westminster, destaca que o risco não está apenas na presença das amebas, mas também nas limitações dos sistemas de controle. Em artigo publicado no The Conversation, ela explica que o monitoramento direto desses organismos raramente faz parte da rotina dos sistemas de abastecimento de água, tanto pela complexidade técnica quanto pelo custo elevado dos testes.
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Entre as espécies mais conhecidas está a Naegleria fowleri, que se desenvolve em águas doces quentes, geralmente entre 30 °C e 40 °C. A infecção ocorre quando a água contaminada entra pelo nariz, permitindo que o microrganismo alcance o cérebro. Apesar de extremamente rara, a doença associada a essa ameba é quase sempre fatal. Casos isolados já foram ligados não apenas a lagos e rios, mas também a água de torneira morna e mal desinfetada, especialmente em procedimentos como lavagens nasais.
Eliminar essas amebas não é simples. Elas podem se alojar em biofilmes — camadas de microrganismos que se formam no interior de tubulações — dificultando a ação de desinfetantes como o cloro. Além disso, conseguem formar cistos altamente resistentes, que funcionam como cápsulas protetoras e aumentam sua sobrevivência em condições adversas, sobretudo durante períodos de calor intenso.
Outro fator de preocupação é o chamado “efeito cavalo de Troia”. Algumas amebas podem abrigar bactérias, vírus e fungos em seu interior, protegendo esses patógenos do ambiente externo e da desinfecção. Isso pode favorecer a persistência de microrganismos causadores de doenças como tuberculose e legionelose, além de contribuir para o aumento da resistência a antibióticos.
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Embora as infecções cerebrais chamem mais atenção, os riscos não se limitam a elas. Amebas também podem causar infecções oculares dolorosas — especialmente em usuários de lentes de contato —, lesões cutâneas em pessoas imunossuprimidas e, em situações raras, infecções que atingem órgãos como pulmões, fígado e rins.
Diante da dificuldade de detecção direta, a principal estratégia de prevenção continua sendo a manutenção rigorosa dos sistemas de água. Especialistas recomendam cuidados simples, como evitar mergulhar a cabeça em águas doces quentes, usar proteção nasal ao nadar, optar por piscinas bem tratadas e nunca utilizar água da torneira para lavar lentes de contato ou realizar lavagens nasais — nesses casos, apenas água esterilizada, destilada ou fervida é considerada segura.
O avanço das mudanças climáticas, segundo os pesquisadores, torna esse alerta ainda mais urgente. À medida que o planeta aquece, organismos antes restritos a determinadas regiões passam a ocupar novos espaços, exigindo adaptações rápidas nas políticas de saúde e no controle ambiental.
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