Viver tragédias causadas por desastres ambientais, como enchentes, secas e incêndios florestais, não é suficiente para conscientizar a população sobre a urgência das mudanças climáticas. É o que aponta uma nova pesquisa publicada na revista Nature Climate Change, conduzida por cientistas da ETH Zurich, na Suíça.
O levantamento global mostrou que a simples exposição a eventos extremos não leva, necessariamente, ao apoio a políticas ambientais mais rígidas. Por outro lado, quando esses desastres são explicitamente associados às mudanças climáticas, o impacto sobre a opinião pública é muito mais significativo.
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O que a pesquisa avaliou
O estudo cruzou dois grandes conjuntos de dados:
- A pesquisa Trust in Science and Science-related Populism (TISP), com mais de 70 mil entrevistas em 68 países sobre crenças e apoio a medidas ambientais;
- Informações históricas e modeladas sobre a proporção da população afetada anualmente por desastres como ondas de calor, inundações e ciclones.
Com base nisso, os pesquisadores analisaram se o contato direto com tragédias climáticas gera mais apoio à tributação do carbono, à energia renovável, ao uso de transporte público e à proteção de florestas. A resposta: na maioria dos casos, não.
Exceção parcial: incêndios florestais
Entre os desastres analisados, apenas os incêndios florestais mostraram uma correlação inicial com maior apoio às políticas climáticas. Porém, ao considerar fatores como o tamanho do território e as crenças já existentes sobre o clima, essa associação desapareceu.
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A chave está na conexão
O fator determinante, segundo os cientistas, foi a percepção da população sobre a relação entre eventos extremos e as mudanças climáticas. Em países onde mais pessoas acreditam que os desastres estão ligados ao aquecimento global, o apoio a políticas climáticas é significativamente maior.
Na média global, essa crença teve pontuação de 3,8 em uma escala de 5. Os níveis mais altos foram registrados na América Latina; os mais baixos, em países da África Central e do Norte da Europa.
Informação importa mais que vivência
Os autores do estudo concluem que viver uma tragédia climática, por si só, não é suficiente para gerar mobilização coletiva. “O que realmente faz diferença é as pessoas entenderem que esses eventos estão conectados à crise climática”, explica Viktoria Cologna, principal autora da pesquisa.
Essa constatação aponta para uma falha na forma como a mídia e os governos comunicam desastres ambientais. Em países como a Austrália, apenas 1% da cobertura noticiosa trata diretamente das mudanças climáticas, e muitos noticiários omitem essa conexão mesmo em episódios de forte impacto.
Embora o apoio público às políticas ambientais seja relativamente alto em diversas regiões do mundo, torná-lo mais robusto requer reforçar a ligação entre os efeitos já sentidos e a causa global que os intensifica. Ou seja: a experiência não basta — é preciso informação e contextualização.
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