A tensão crescente entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional reacendeu um temor que parecia enterrado: o surgimento de um ambiente propício a um novo processo de impeachment. Embora ainda não se fale abertamente sobre isso nos corredores do poder, os sinais de desgaste político e a escalada de confrontos lembram os primeiros atos da crise que derrubou Dilma Rousseff há quase uma década.
O estopim da mais recente turbulência foi a derrubada, por decisão relâmpago da Câmara dos Deputados, do decreto que mantinha a alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) em determinados moldes. A medida foi vista como uma afronta direta ao governo Lula e como um passo calculado do Congresso para testar os limites da autoridade do Executivo.
A movimentação foi comandada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que anunciou a votação poucas horas antes de sua realização, pegando o Planalto de surpresa. Desde então, declarações públicas, entrevistas com críticas ao governo e ausências simbólicas — como o boicote da bancada do agronegócio ao lançamento do Plano Safra — vêm aumentando a temperatura no ambiente político.
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Apesar de afirmar que não deseja entrar em conflito com o Legislativo, Lula não hesitou em recorrer ao Supremo Tribunal Federal para contestar a decisão do Congresso. Segundo o presidente, se não houver um limite claro entre os papéis de cada Poder, ele perde a capacidade de governar. “Cada macaco no seu galho. Ele legisla, e eu governo”, resumiu.
A reação do Planalto, que incluiu uma ofensiva nas redes sociais para mostrar como determinadas decisões parlamentares prejudicam a população — como no caso do possível aumento na conta de luz —, busca reposicionar o governo como defensor dos interesses populares. Ao mesmo tempo, tenta conter o avanço de uma narrativa de enfraquecimento político.
O que preocupa aliados de Lula é a união entre os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, contra o governo. Se a oposição é esperada, a adesão de Alcolumbre surpreendeu, já que ele vinha se comportando como um aliado moderado do Planalto. Essa convergência de forças sugere que há mais do que insatisfação pontual: pode estar em curso uma tentativa articulada de reduzir o poder do Executivo e gerar um ambiente de instabilidade institucional.
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Em meio à disputa de forças, a crise caminha para se tornar mais do que uma batalha política pontual. Às vésperas das eleições de 2026 e em um ano que marca os 10 anos do impeachment de Dilma, o Planalto vê no ar um déjà-vu incômodo: sinais de um jogo que já conhece, com roteiro conhecido e desfecho imprevisível.
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