Um mundo distante, do tamanho aproximado de duas Terras e envolto por uma espessa atmosfera rica em hidrogênio, pode estar nos dando uma das pistas mais intrigantes já registradas na busca por vida fora do Sistema Solar. Localizado a 120 anos-luz da Terra, o exoplaneta K2-18b voltou ao centro das atenções após uma equipe de astrônomos detectar a possível presença de moléculas que, na Terra, são exclusivamente associadas a organismos vivos.
A descoberta, publicada na revista The Astrophysical Journal Letters, foi anunciada pelo astrônomo Nikku Madhusudhan, da Universidade de Cambridge. Apesar da empolgação com a descoberta, ele foi enfático ao pedir cautela. “Não é do interesse de ninguém afirmar prematuramente que detectamos vida”, afirmou. Ainda assim, destacou que esta pode ser a primeira vez que bioassinaturas são identificadas em um planeta potencialmente habitável. “Este é um momento revolucionário”, completou.
As moléculas identificadas – sulfeto de dimetila (DMS) e dissulfeto de dimetila (DMDS) – são substâncias emitidas por organismos marinhos na Terra, como o fitoplâncton. A quantidade estimada desses compostos na atmosfera do exoplaneta, segundo a equipe, é milhares de vezes maior que a observada no ambiente terrestre. A análise foi feita por meio de espectroscopia de trânsito, técnica que utiliza o Telescópio Espacial James Webb para examinar a luz estelar filtrada pela atmosfera planetária.
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Apesar do entusiasmo, a detecção ainda está longe de ser uma prova definitiva. O sinal químico precisa atingir o nível estatístico de cinco sigma — equivalente a 99,99999% de confiança — para ser formalmente considerado uma descoberta científica. No momento, os dados alcançaram três sigma, o que representa uma confiabilidade de cerca de 99,7%.
Outros cientistas também se manifestaram com reservas. “É uma pista, mas ainda não podemos concluir que seja habitável”, disse Stephen Schmidt, da Universidade Johns Hopkins. Já Christopher Glein, do Southwest Research Institute, foi ainda mais direto: “A menos que vejamos ETs nos acenando, não será uma prova cabal”.
A própria equipe de Madhusudhan reconhece as incertezas. Pesquisas em laboratório estão em andamento para investigar se essas moléculas poderiam se formar por processos abióticos — ou seja, sem envolvimento de organismos vivos. Outras hipóteses sugerem que o planeta pode não ter uma superfície sólida, ou que os compostos detectados podem ter origem geológica desconhecida.
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Desde que foi identificado, em 2017, K2-18b tem despertado o interesse da comunidade científica por se enquadrar em uma classe de planetas conhecida como “hiceanos” — mundos cobertos por oceanos e envoltos em atmosferas ricas em hidrogênio. Ainda assim, o debate está longe de terminar. “Tudo o que sabemos sobre planetas que orbitam outras estrelas vem de pequenas quantidades de luz. É um sinal extremamente tênue que temos que interpretar com muito cuidado”, ressaltou o professor Oliver Shorttle, também da Universidade de Cambridge.
Seja qual for o desfecho, a análise da atmosfera de K2-18b representa um passo importante no caminho para responder uma das perguntas mais antigas da humanidade: estamos sozinhos no Universo?
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