O chamado Relógio do Juízo Final foi novamente ajustado e agora marca o momento mais próximo da meia-noite desde que foi criado, há quase oito décadas. A decisão foi anunciada nesta terça-feira pelo Bulletin of the Atomic Scientists, organização responsável pelo indicador simbólico que mede o nível de ameaça existencial imposto pela própria humanidade.
O relógio passou a marcar 85 segundos antes da meia-noite — ponto teórico que representa a aniquilação global. O ajuste aproxima o marcador em quatro segundos em relação ao ano anterior e reflete, segundo os pesquisadores, um cenário internacional cada vez mais instável.
Entre os principais fatores citados estão o comportamento mais agressivo das grandes potências nucleares, especialmente Estados Unidos, Rússia e China, além do enfraquecimento dos mecanismos de controle de armas, conflitos armados em curso e o avanço acelerado da inteligência artificial sem regulação adequada.
Criado em 1947, no contexto das tensões do pós-guerra, o Relógio do Juízo Final surgiu como um alerta público sobre os perigos do armamento nuclear. A entidade que o administra foi fundada em 1945 por cientistas envolvidos no Projeto Manhattan, entre eles Albert Einstein e J. Robert Oppenheimer.
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Para a presidente do Bulletin, Alexandra Bell, o avanço do relógio reflete uma crise de liderança em escala global. “É claro que o Relógio do Juízo Final trata de riscos globais, e o que vimos foi uma falha global na liderança”, afirmou. Segundo ela, “não importa o governo, uma mudança em direção ao neoimperialismo e uma abordagem orwelliana de governança só servirá para empurrar o relógio para a meia-noite”.
Esta é a terceira vez, nos últimos quatro anos, que os cientistas decidem aproximar o marcador do limite máximo. Bell avalia que, no campo nuclear, 2025 não apresentou sinais de avanço. “Estruturas diplomáticas de longa data estão sob pressão ou em colapso, a ameaça de testes nucleares explosivos retornou, as preocupações com a proliferação estão crescendo e houve três operações militares ocorrendo sob a sombra de armas nucleares”, disse. Para ela, “o risco de uso nuclear é insustentável e inaceitavelmente alto”.
A análise cita conflitos e tensões em diferentes regiões do planeta, incluindo a guerra da Rússia na Ucrânia, os ataques envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, confrontos entre Índia e Paquistão e instabilidades persistentes na Península Coreana e no entorno de Taiwan. Também entram na conta as mudanças no equilíbrio geopolítico desde o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.
Outro ponto de preocupação é o futuro do tratado New START, último acordo vigente de limitação de armas nucleares entre Washington e Moscou, que expira em fevereiro. O presidente russo Vladimir Putin propôs uma prorrogação temporária dos limites, mas ainda não houve resposta formal dos Estados Unidos.
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Além da questão nuclear, os cientistas alertam para os riscos associados à integração da inteligência artificial em sistemas militares, ao possível uso da tecnologia no desenvolvimento de ameaças biológicas e ao papel da IA na disseminação de desinformação em escala global. As mudanças climáticas seguem listadas como um fator adicional de instabilidade.
Durante o anúncio, a jornalista filipina Maria Ressa, vencedora do Prêmio Nobel da Paz, chamou atenção para o impacto das novas tecnologias sobre o debate público. “Estamos vivendo um Armagedom de informações provocado pela tecnologia que governa nossas vidas”, afirmou. Segundo ela, “nenhuma dessas tecnologias está ancorada em fatos. Chatbots não passam de uma máquina probabilística”.
Para os responsáveis pelo Relógio do Juízo Final, o ajuste não representa uma previsão inevitável, mas um alerta. O objetivo, segundo a organização, é chamar a atenção para decisões políticas e tecnológicas que ainda podem ser revistas — antes que o relógio alcance, simbolicamente, a meia-noite.
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