Uma região do oceano onde a luz quase não alcança começou a revelar seus segredos. Pesquisadores anunciaram a identificação de pelo menos 20 espécies até então desconhecidas da ciência em recifes profundos do Oceano Pacífico, em uma área conhecida como “zona crepuscular” — faixa intermediária entre águas rasas e grandes profundidades.
As descobertas foram feitas por uma equipe da California Academy of Sciences e divulgadas pela instituição em meados de dezembro. O trabalho reuniu dados coletados ao longo de vários anos em ambientes marinhos próximos à ilha de Guam, uma região ainda pouco estudada devido às condições extremas de pressão e baixa luminosidade.
Para acessar esse universo invisível, os cientistas utilizaram estruturas especiais instaladas no fundo do mar desde 2018. Conhecidos como Autonomous Reef Monitoring Structures (ARMS), esses equipamentos funcionam como recifes artificiais, permitindo que diferentes organismos se fixem e sejam observados ao longo do tempo. Em novembro de 2025, 13 dessas estruturas foram recuperadas de profundidades que variam entre 55 e 100 metros.
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Dentro delas, os pesquisadores encontraram cerca de 2 mil organismos, correspondentes a aproximadamente 100 espécies que ainda não haviam sido registradas naquela região. Deste total, ao menos 20 apresentam características que indicam se tratar de espécies totalmente novas. Entre os grupos identificados estão caranguejos, esponjas, ascídias — conhecidas popularmente como “esguichos-do-mar” — e gorgônios, um tipo de coral.
Segundo o ictiólogo Luiz Rocha, curador da pesquisa, o número pode ser ainda maior. Muitos exemplares passarão por análises genéticas detalhadas, etapa essencial para confirmar se há diferenças invisíveis a olho nu. “Provavelmente são mais, porque o DNA pode mostrar diferenças que não aparecem só olhando o animal”, afirmou.
Além do impacto na biodiversidade, o estudo trouxe um sinal de alerta. Sensores acoplados às estruturas registraram variações de temperatura ao longo dos anos, indicando que o aquecimento global já alcança até mesmo esses ambientes mais profundos, antes considerados relativamente protegidos das mudanças climáticas.
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A zona crepuscular do oceano é um dos ambientes menos conhecidos do planeta. As limitações técnicas para mergulhos prolongados tornam pesquisas diretas raras, o que aumenta a importância de equipamentos de monitoramento de longo prazo. Rocha compara os ARMS a “pequenos hotéis submersos, onde os organismos se instalam com o tempo”.
Agora, a equipe avança para a fase mais longa do trabalho: a descrição formal das espécies, processo que pode levar meses ou até anos. Há também planos para recuperar estruturas semelhantes em outras áreas do Pacífico, como Palau e a Polinésia Francesa, ampliando o levantamento para até 76 dispositivos.
Com apenas uma fração do fundo do mar explorada diretamente até hoje, os cientistas reforçam que conhecer a biodiversidade escondida nas profundezas não é apenas uma curiosidade científica. Trata-se de um passo fundamental para compreender como a vida se adapta a condições extremas — e para criar estratégias eficazes de conservação em um oceano cada vez mais impactado pelas mudanças do clima.
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