Aos 17 anos, o DJ Murillo Serantoni, de São José do Rio Preto (SP), enfrentava a leucemia e recebeu um transplante de medula óssea de uma doadora alemã. Anos depois, ele eternizou nas costas, em forma de tatuagem, trechos da carta enviada por ela após a recuperação. O gesto simboliza não só a gratidão, mas também o alcance global do Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome), que conecta pacientes brasileiros a doadores em todo o mundo.
Criado em 1993, o Redome é hoje o terceiro maior banco de doadores do planeta, com 5,9 milhões de voluntários cadastrados em 2025, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), que coordena o sistema. Ele só fica atrás dos registros dos Estados Unidos e da Alemanha, mas é o maior entre os financiados exclusivamente com recursos públicos.
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Um banco diverso e único
O diferencial brasileiro está na diversidade étnica, reflexo da miscigenação do país. Essa variedade genética amplia as chances de encontrar compatibilidade, já que os genes HLA — responsáveis pela resposta imunológica — são altamente variáveis entre populações. Atualmente, quase 90% dos pacientes brasileiros encontram doador compatível dentro do próprio Redome.
Em 2023, foram realizados 366 transplantes de medula óssea com doadores não aparentados no Brasil. Mais de 75% dos casos utilizaram material de doadores nacionais; os demais dependeram de registros internacionais, como o DKMS (Alemanha).
Como nasceu o Redome
A ideia surgiu no fim dos anos 1980, quando os médicos José Roberto Moraes (já falecido) e Maria Elisa Hue Moraes estudavam imunogenética nos EUA e acompanharam a dificuldade de pacientes latinos em encontrar doadores nos registros de perfil majoritariamente caucasiano.
De volta ao Brasil, o casal iniciou o projeto com a Fundação Pró-Sangue de São Paulo. Em 1993, os primeiros voluntários foram cadastrados e, em 1995, ocorreu o primeiro transplante com doador não aparentado do registro nacional. Em 1998, o Inca assumiu a coordenação e o sistema ganhou escala nacional.
“Ter um banco desse porte em um país com nosso IDH é um luxo. Poucos países latino-americanos têm registros estruturados como o nosso”, afirma Danielli Oliveira, coordenadora do Redome.
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A responsabilidade do doador
Existem dois métodos de coleta:
- Aférese: menos invasivo, coleta células-tronco do sangue após medicação que estimula a produção;
- Punção: feita sob anestesia, retira a medula diretamente do osso da bacia.
Apesar da segurança, cerca de 40% dos voluntários convocados desistem ou não são localizados, segundo dados de 2016. “Muitos se cadastram no impulso, mas é preciso comprometimento. É uma questão de vida ou morte para o paciente”, alerta a médica Carmen Vergueiro, da Associação da Medula Óssea do Estado de São Paulo (Ameo).
Um patrimônio nacional
Além de ser um dos maiores registros do mundo, o Redome é considerado um patrimônio de saúde pública. Para Murillo, que hoje leva uma vida saudável graças a uma doadora encontrada a milhares de quilômetros, o sistema simboliza mais do que ciência: “É gratidão inexplicável. Minha vida só continua porque alguém, em outro país, decidiu se cadastrar”.
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