Uma “epidemia silenciosa” vem ganhando força no Brasil e preocupa autoridades e pesquisadores: o escorpionismo — como é chamada a ocorrência de picadas de escorpião — aumentou mais de 250% nos últimos nove anos. De 2014 a 2023, o país registrou mais de 1,1 milhão de casos, segundo artigo publicado pela revista Frontiers in Public Health. A projeção é alarmante: até 2033, o número pode quase dobrar se medidas preventivas não forem intensificadas.
O fenômeno é impulsionado por diversos fatores, incluindo mudanças climáticas, urbanização desordenada e saneamento básico precário. A combinação cria o cenário ideal para a proliferação de espécies como o Tityus serrulatus, o escorpião amarelo, que tem a capacidade de se reproduzir sozinho (sem a necessidade de acasalamento) e adapta-se facilmente ao ambiente urbano — incluindo esgotos, entulhos e até apartamentos em andares altos.
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Em janeiro deste ano, um caso trágico ilustrou o risco: uma criança de 3 anos morreu em Jaguariúna (SP) após ser picada por um escorpião escondido dentro de sua galocha, mesmo após os pais terem checado o calçado.
Os principais afetados pelas picadas são crianças, idosos e pessoas com doenças pré-existentes. Apesar da existência do soro antiescorpiônico fornecido pelo SUS, o acesso ao tratamento é dificultado por uma distribuição concentrada e pela ausência do antídoto na rede privada.
As autoras do estudo destacam ainda um obstáculo crítico: a subnotificação. Muitos casos não chegam aos sistemas oficiais de saúde, o que compromete o planejamento de políticas públicas e ações preventivas. Por isso, as pesquisadoras cobram mais investimento em monitoramento, campanhas educativas e estratégias locais que envolvam a comunidade.
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A prevenção, no entanto, pode começar com atitudes simples dentro de casa: manter ambientes limpos e organizados, sacudir roupas e calçados antes de usá-los, vedar ralos e frestas, e evitar o acúmulo de entulho e lixo próximo às residências.
Com a combinação de mudanças ambientais e falhas estruturais, os escorpiões estão deixando o ambiente silvestre para se tornarem parte indesejada do cotidiano urbano — e o alerta, segundo os especialistas, não pode mais ser ignorado.
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