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quarta-feira, setembro 16, 2026

Setor de compras corporativas vira “centro de inteligência” com ajuda de IA preditiva

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A área de compras das empresas, historicamente vista como burocrática e reativa, está passando por uma transformação silenciosa. Num cenário de inflação volátil e cadeias de suprimento globais cada vez mais instáveis, o procurement — nome técnico para o departamento responsável por adquirir bens e serviços — vem ganhando um papel estratégico nunca visto antes, impulsionado pela inteligência artificial.

Os números ajudam a entender a pressão: a inflação média global de commodities subiu de uma média de 3,2% entre 2015 e 2020 para 5,7% entre 2021 e 2026, impulsionada por fatores que vão da pandemia a conflitos geopolíticos que afetam rotas estratégicas do comércio internacional. Nesse contexto, a capacidade de prever movimentos de mercado antes da concorrência se tornou um diferencial competitivo real.

Levantamentos da McKinsey mostram que empresas que utilizam IA em procurement já conseguem gerar economias entre 10% e 15% em negociações com fornecedores, além de reduzir em até 90% o tempo gasto em análises e processos operacionais. A Deloitte, por sua vez, aponta que organizações líderes em procurement obtêm retornos até três vezes maiores em investimentos em IA, quando comparadas a concorrentes menos digitalizados.

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O salto mais recente vem da chamada IA agêntica — sistemas capazes de executar tarefas de forma autônoma a partir de objetivos definidos pelas empresas, automatizando análises complexas e gerando recomendações em tempo real. Segundo a Gartner, os investimentos globais em softwares de supply chain baseados em IA agêntica devem saltar de menos de US$ 2 bilhões em 2025 para US$ 53 bilhões até 2030. 

O movimento também aparece no porte das empresas que atendem esse mercado. A GEP Brasil, consultoria com atuação em procurement e supply chain no país desde 2010, projeta crescer mais de 30% em 2026 — expansão que se acelerou após a incorporação da CostDrivers, plataforma brasileira de inteligência de custos fundada em 2016. 

Para o CEO da empresa, Erick Boano, a virada de chave está na lógica temporal das decisões: “Antes, as empresas negociavam olhando para o histórico. Hoje, a IA permite tomar decisões olhando para o que provavelmente vai acontecer nos próximos meses. Isso muda completamente o poder de negociação”, afirma. Segundo ele, em muitos casos a economia já acontece antes mesmo de a negociação começar, porque a empresa já sabe qual fornecedor representa maior risco, qual categoria deve sofrer reajuste e qual o melhor momento para fechar contrato.

O movimento não é exclusividade brasileira. O mercado global de software de procurement atingiu US$ 8,96 bilhões em 2025 e deve chegar a US$ 22,88 bilhões até 2035 — um crescimento anual composto de quase 10%. Globalmente, soluções como SAP Ariba, Coupa, Oracle Procurement Cloud e GEP SMART dominam o segmento corporativo de grande porte, ainda que com custos de implementação elevados.

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Para especialistas do setor, o avanço da IA não substitui o julgamento humano — pelo contrário, exige mais dele. “A discussão não é substituição, é qualificação da decisão. A IA reduz assimetrias de informação, acelera análises e permite que o procurement atue estrategicamente, inclusive em categorias antes negligenciadas”, resume um dos participantes de um encontro recente sobre o tema.

Em outras palavras: a área de compras está deixando de ser vista como um simples centro de custos e passando a ocupar um espaço de inteligência de negócios — capaz não só de reagir ao mercado, mas de antecipar seus movimentos.

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