Pesquisadores identificaram uma espécie incomum de formiga no Japão que desafia o funcionamento tradicional das colônias desses insetos. Diferentemente da maioria das espécies conhecidas, essa formiga não possui operárias nem machos — todos os indivíduos que nascem são rainhas.
Batizada de Temnothorax kinomurai, a espécie foi descrita por cientistas em um estudo recente publicado na revista científica Current Biology. O trabalho contou com a participação do biólogo Jürgen Heinze, da Universidade de Regensburg, que destacou o caráter único da descoberta.
Segundo os pesquisadores, trata-se da primeira espécie conhecida em que toda a população é composta exclusivamente por rainhas capazes de se reproduzir.
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Colônias parasitas
Em vez de formar suas próprias colônias com operárias responsáveis por tarefas como coleta de alimento e cuidado das larvas, essas formigas dependem de outras espécies para sobreviver. Elas invadem ninhos de formigas relacionadas e assumem o controle da colônia.
Durante o ataque, as invasoras podem picar a rainha hospedeira e as operárias que tentam defendê-la. Caso consigam dominar o ninho, as operárias sobreviventes passam a cuidar da prole das novas rainhas parasitas.
Como explicou Heinze em entrevista, “T. kinomurai precisa das operárias da planta hospedeira para buscar alimento e cuidar da prole, não consegue produzir descendentes sem elas”.
Reprodução sem machos
Outro aspecto que torna a espécie particularmente intrigante é seu método reprodutivo. As rainhas geram descendentes sem necessidade de acasalamento, por meio de um processo chamado partenogênese — um tipo de reprodução assexuada em que os embriões se desenvolvem a partir de óvulos não fertilizados.
Para investigar o fenômeno, a equipe liderada pela bióloga Keiko Hamaguchi, do Centro de Pesquisa de Kansai em Kyoto, coletou seis colônias naturais e as manteve em laboratório. A partir delas, surgiram 43 novos indivíduos — todos rainhas.
Quando algumas dessas formigas foram introduzidas em colônias da espécie hospedeira Temnothorax makora, sete conseguiram assumir o controle do ninho. Juntas, produziram 57 novos descendentes, que também se desenvolveram exclusivamente como rainhas.
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Estratégia evolutiva incomum
Em muitas espécies de formigas, a reprodução envolve tanto processos sexuados quanto assexuados. A diversidade genética produzida pelo acasalamento ajuda a manter colônias com operárias adaptáveis a diferentes tarefas.
No caso de T. kinomurai, porém, os cientistas acreditam que a combinação entre reprodução clonal e parasitismo social representa uma estratégia evolutiva singular.
Segundo o biólogo evolucionista Jonathan Romiguier, essa união de características já era considerada teoricamente possível, mas nunca havia sido observada na natureza.
A descoberta pode ajudar pesquisadores a compreender melhor como sociedades complexas de insetos evoluem e se adaptam — especialmente quando abandonam estruturas sociais consideradas fundamentais para a sobrevivência de uma colônia.
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