A história da fotografia costuma ser contada a partir de grandes nomes masculinos. A partir de 17 de março, o Instituto Moreira Salles, em São Paulo, convida o público a olhar essa trajetória por outra perspectiva. A exposição O que elas viram: fotolivros históricos de mulheres, 1843-1999 reúne 106 obras produzidas por fotógrafas ao longo de mais de um século e meio.
Instalada na Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista, a mostra segue em cartaz até 2 de agosto, com entrada gratuita. O projeto é realizado em parceria com a organização nova-iorquina 10×10 Photobooks, fundada por Russet Lederman e Olga Yatskevich, que também assinam a curadoria.
Um panorama que atravessa séculos
A exposição está organizada em dez núcleos cronológicos que dialogam com transformações sociais e políticas. Entre os recortes estão “Pioneiras” (1843-1919), “A nova mulher” (1920-1935), “Políticas sexuais” (1976-1979) e “Em busca de uma fotodemocracia” (1990-1999).
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O percurso começa com nomes fundamentais, como Anna Atkins, autora de Photographs of British Algae: Cyanotype Impressions (1843), considerado um dos primeiros livros ilustrados com fotografias da história. Também integra o núcleo inicial Dream Children (1901), de Elizabeth B. Brownell, obra rara que explora composições inspiradas nos tableaux vivant.
Ao longo das décadas, os livros apresentados dialogam com debates raciais, políticos e de gênero. Em African Journey (1945), Eslanda Goode Robeson documenta experiências no continente africano sob uma perspectiva pioneira para a época. Já nos anos 1970, Annette Messager tensiona padrões estéticos e papéis sociais femininos em Les Tortures volontaires (1974).
No recorte final da mostra, artistas como Angèle Etoundi Essamba e Hiromix apresentam obras que confrontam estereótipos e registram identidades contemporâneas, refletindo transformações culturais do fim do século XX.
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Exposição como experiência de leitura
Um dos diferenciais da mostra é a possibilidade de manusear os livros. Diferentemente de exposições em que as obras ficam restritas às vitrines, o público poderá folhear os volumes, reforçando o caráter de sala de leitura e pesquisa.
A iniciativa já passou por instituições como o Getty Research Institute, o Museo Reina Sofía e o Rijksmuseum, consolidando reconhecimento internacional. Em São Paulo, a abertura contará ainda com uma conversa pública com Russet Lederman, marcada para o dia 17 de março, às 18h30, com retirada de senhas uma hora antes.
Mais do que apresentar obras históricas, a exposição propõe uma revisão crítica da historiografia da fotografia. Ao reunir mais de 150 anos de produção feminina, o IMS amplia o debate sobre autoria, memória e representatividade em um campo artístico que, por muito tempo, deixou essas vozes à margem.
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