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quarta-feira, setembro 16, 2026

Convívio com o fogo pode ter moldado o DNA humano ao longo da evolução

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O domínio do fogo, considerado um dos marcos mais importantes da história humana, pode ter provocado mudanças duradouras no DNA da nossa espécie. É o que indica um novo estudo internacional que associa a exposição recorrente a queimaduras a alterações evolutivas na forma como o corpo humano reage a ferimentos, infecções e lesões graves.

A pesquisa, publicada nesta semana na revista científica BioEssays, foi conduzida por pesquisadores do Imperial College London, no Reino Unido. Segundo os autores, a convivência prolongada com o fogo teria funcionado como uma pressão seletiva incomum, favorecendo indivíduos biologicamente mais aptos a sobreviver a lesões térmicas — um fenômeno praticamente inexistente em outras espécies.

De acordo com o estudo, os seres humanos são o único mamífero que convive de maneira sistemática com ambientes de alto risco térmico e que, ainda assim, apresenta elevada taxa de sobrevivência após queimaduras. “Queimaduras são lesões exclusivamente humanas. Nenhuma outra espécie vive em ambientes com altas temperaturas e sob o risco constante de queimaduras como os humanos”, afirma o cirurgião Joshua Cuddihy, autor principal da pesquisa.

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As queimaduras variam desde lesões superficiais até danos profundos que comprometem grandes áreas da pele, responsável por proteger o organismo contra microrganismos. Antes da descoberta dos antibióticos, infecções decorrentes desse tipo de ferimento eram frequentemente fatais, sobretudo quando atingiam extensas regiões do corpo.

Para investigar se essa exposição deixou marcas genéticas, os pesquisadores compararam o DNA humano ao de outros primatas. A análise revelou sinais de evolução acelerada em genes ligados à inflamação, à cicatrização e à resposta imunológica — processos diretamente envolvidos na recuperação de queimaduras.

Com base nesses dados, a equipe sustenta que a seleção natural favoreceu indivíduos capazes de responder de forma rápida e intensa a lesões térmicas leves e moderadas. Dor imediata, inflamação eficiente e cicatrização acelerada teriam aumentado as chances de sobrevivência e reprodução ao longo de milhares de gerações. “Nossa pesquisa sugere que a seleção natural favoreceu características que melhoraram a sobrevivência após queimaduras menores e mais frequentes”, diz Cuddihy.

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O estudo também aponta um efeito paradoxal dessa adaptação. As mesmas respostas inflamatórias que protegem em ferimentos pequenos podem se tornar perigosas em queimaduras extensas. Nessas situações, a reação exagerada do organismo pode desencadear inflamação sistêmica, cicatrização severa e até falência de órgãos.

Segundo os autores, essa “contrapartida evolutiva” ajuda a explicar por que humanos modernos continuam especialmente vulneráveis a queimaduras graves, mesmo com os avanços da medicina. Também contribui para entender por que resultados obtidos em testes com animais nem sempre se aplicam a pacientes humanos, já que outras espécies não compartilham a mesma trajetória evolutiva associada ao uso do fogo.

Para o biólogo evolucionista Armand Leroi, coautor do estudo, a hipótese amplia o entendimento sobre os mecanismos da seleção natural. “O que torna essa teoria da seleção por queimaduras tão empolgante é que ela apresenta uma nova forma de seleção natural — uma que, além disso, depende da cultura”, afirma.

Os pesquisadores avaliam que essa abordagem pode influenciar futuras pesquisas clínicas, ajudando a compreender por que alguns pacientes se recuperam melhor do que outros e abrindo caminho para estratégias de tratamento mais personalizadas no cuidado de vítimas de queimaduras.

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