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quarta-feira, setembro 16, 2026

Tensões geopolíticas em torno da Groenlândia acendem alerta na comunidade científica

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A intensificação das disputas políticas envolvendo a Groenlândia voltou a preocupar cientistas que atuam no Ártico. Pesquisadores alertam que declarações e movimentos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, podem fragilizar uma rede de colaboração científica construída ao longo de décadas entre países europeus e norte-americanos.

Há mais de 30 anos, nações com presença no Ártico mantêm parcerias em áreas como física, biologia, climatologia e ciências sociais para compreender uma das regiões mais sensíveis às mudanças climáticas. Desde o fim da década de 1970, o Ártico perde, em média, cerca de 85 mil quilômetros quadrados de gelo marinho por ano — um ritmo que preocupa especialistas e reforça a necessidade de pesquisas conjuntas.

Mesmo durante a Guerra Fria, cientistas dos Estados Unidos e da então União Soviética continuaram a cooperar em estudos sobre o Ártico, ao lado de pesquisadores do Canadá, Dinamarca, Noruega, Islândia, Finlândia e Suécia. Esse esforço foi institucionalizado em 1991 com a criação do Conselho do Ártico, que ampliou a integração científica na região.

Importância estratégica e ambiental

A Groenlândia ocupa um papel central nesse cenário. Aproximadamente 80% da ilha é coberta por uma espessa camada de gelo que vem derretendo de forma acelerada com o aumento das temperaturas globais. A perda total dessa camada poderia elevar o nível médio dos oceanos em até 7,4 metros, afetando milhões de pessoas em áreas costeiras ao redor do mundo.

Além do impacto ambiental, o degelo desperta interesse econômico por facilitar o acesso a reservas de terras raras e outros recursos estratégicos. Para os cientistas, no entanto, o gelo representa algo ainda mais valioso: um arquivo natural da história do planeta. Perfurações profundas permitem analisar bolhas de ar preservadas por milhares de anos, oferecendo pistas sobre a evolução da atmosfera terrestre.

“A Groenlândia é um alerta antecipado do que pode acontecer globalmente”, afirma Maribeth Murray, diretora do Instituto Ártico da América do Norte. “É grande demais para qualquer país estudar sozinho.”

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Cooperação ameaçada por conflitos políticos

A ciência no Ártico já sentiu os efeitos da geopolítica recentemente. A invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, interrompeu colaborações históricas e levou à suspensão de projetos conjuntos, como o Interact, que reunia dezenas de estações científicas em toda a região.

Segundo Margareta Johansson, ex-coordenadora do Interact, a exclusão de estações russas teve impacto profundo na capacidade de monitoramento do Ártico. “Se você remove todas as estações russas, basicamente não saberemos o que está acontecendo no Ártico”, alerta.

Agora, pesquisadores temem que um agravamento das tensões entre Europa e Estados Unidos leve a um novo enfraquecimento da cooperação científica. “Estamos nos sentindo bastante desconfortáveis”, disse Murray, ao comentar o clima de incerteza em torno de projetos futuros na Groenlândia.

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Ciência como ponte diplomática

Especialistas defendem que a pesquisa científica no Ártico funcione também como ferramenta diplomática. Para Paul Berkman, ligado à Universidade de Harvard, a chamada diplomacia científica pode ajudar a construir interesses comuns mesmo em cenários de rivalidade política.

“O Ártico é uma faca de dois gumes”, afirma Berkman. “Pode ser palco de conflitos globais, mas também oferece uma oportunidade rara de cooperação entre potências que normalmente discordam.”

Na avaliação de cientistas, preservar canais de diálogo e colaboração no Ártico é essencial não apenas para o avanço do conhecimento, mas para enfrentar desafios globais como as mudanças climáticas — cujos efeitos, lembram eles, não respeitam fronteiras políticas.

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