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quarta-feira, setembro 16, 2026

Lua vira palco de poder e ciência em nova disputa entre Washington e Pequim

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Mais de meio século depois do feito da Apollo 11, a Lua volta ao centro das atenções internacionais. O satélite natural da Terra deixou de ser apenas um marco histórico da exploração humana para se transformar em peça estratégica de um novo embate global. Até o fim desta década, Estados Unidos e China pretendem chegar novamente à superfície lunar — desta vez com objetivos que extrapolam uma simples visita.

De um lado está a NASA, que tenta retomar o protagonismo perdido após décadas de hiato em missões tripuladas além da órbita terrestre. Do outro, a CNSA, braço espacial de um país que acelerou investimentos científicos e tecnológicos e passou a disputar espaço, literalmente, com as potências tradicionais.

A coincidência de prazos — ambos os programas miram a Lua por volta de 2030 — reacendeu comparações com a corrida espacial do século 20. Mas o cenário atual é mais complexo. A discussão agora envolve exploração científica contínua, uso de recursos naturais, infraestrutura permanente e até a necessidade de rever acordos internacionais que regulam atividades fora da Terra.

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“Até 2030, o programa dos EUA, liderado pela Nasa, deve se concentrar no retorno de astronautas à Lua e em pesquisas para comprovação de tecnologias para uma presença sustentável e de longo prazo no satélite. Já a China prioriza a exploração robótica, a avaliação de recursos e a construção de uma infraestrutura controlada rumo a uma base permanente”, explica o astrônomo Alexandre Bergantini, do Observatório do Valongo da UFRJ, com apoio do Instituto Serrapilheira.

Nos Estados Unidos, o avanço chinês já provoca inquietação política. Em audiências no Senado americano, parlamentares levantaram a possibilidade de Pequim consolidar influência estratégica caso chegue primeiro à Lua. A preocupação ganhou força após declarações públicas de Jim Bridenstine, ex-administrador da Nasa. “A menos que algo mude, é altamente improvável que os Estados Unidos consigam cumprir o cronograma projetado pela China”, afirmou.

Do ponto de vista operacional, o plano americano passa pela missão Artemis III, que prevê o pouso de astronautas na superfície lunar. O projeto, porém, enfrenta atrasos e desafios técnicos, especialmente na parceria com a SpaceX, responsável pela nave Starship. Apesar disso, os recentes testes bem-sucedidos do veículo reacenderam o otimismo dentro do programa.

“A nave já conquistou vários avanços na possibilidade de reuso e em seu escudo térmico. Mas ainda há um grande passo em levar os seres humanos para viagens completas, especialmente quando pensamos no combustível”, avalia Fábio Raia, professor da Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Enquanto isso, a China acumula resultados consistentes. Em 2024, a missão Chang’e-6 trouxe à Terra amostras do lado oculto da Lua, um feito inédito obtido por meio de sondas robóticas. Para especialistas, essa estratégia incremental pode render vantagem no médio prazo. “Geopoliticamente, seria uma grande mudança de prestígio se a China chegar lá antes e poderia influenciar as normas futuras sobre operações e recursos lunares. Cientificamente, aceleraria as descobertas, mas potencialmente de forma mais fragmentada se o compartilhamento de dados permanecer limitado”, observa Bergantini.

Apesar da rivalidade, os obstáculos são comuns aos dois países. Missões prolongadas no espaço impõem riscos à saúde humana, como perda de massa óssea, enfraquecimento muscular e exposição intensa à radiação. Há ainda o desafio financeiro: manter operações lunares exige investimentos bilionários e soluções inéditas para geração de energia, construção e aproveitamento de recursos locais.

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“Até 2030, tudo se resume a aprender a viver e trabalhar fora da Terra, resolvendo problemas relativos à geração de energia, ao uso de recursos in situ, à construção na superfície lunar e à adaptação humana. A Lua é o campo de testes. Se conseguirmos manter tripulações lá, reduziremos drasticamente o risco inerente associado a bases lunares permanentes e, em última análise, de missões humanas a Marte”, conclui Bridenstine.

Mais do que uma corrida por datas ou bandeiras fincadas no solo lunar, a disputa atual redefine como a humanidade pretende ocupar, explorar e governar o espaço nas próximas décadas.

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