A popularização de ferramentas de inteligência artificial elevou o nível de realismo dos vídeos a um patamar inédito — e com isso abalou um dos pilares da confiança digital: a crença de que “ver é acreditar”. Em 2025, conteúdos audiovisuais gerados por IA circulam com tal precisão que até usuários experientes têm dificuldade para identificar o que é autêntico.
Para o especialista em segurança da informação Thiago Guedes Pereira, a distinção visual deixou de ser um recurso confiável para o público comum. “A fronteira entre o real e o sintético praticamente desapareceu. A capacidade humana de separar um do outro entrou em colapso”, afirma. Segundo ele, falhas que antes denunciavam a fraude — sombras estranhas, movimentos rígidos ou sincronização labial imperfeita — hoje são raras.
Dados citados pelo especialista indicam que pessoas conseguem identificar corretamente vídeos falsos de alta qualidade em apenas cerca de um quarto das tentativas. Em outras palavras, a maioria dos conteúdos manipulados passa despercebida, mesmo quando analisada com atenção.
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Nem máquinas são infalíveis
A dificuldade não se limita aos usuários. Sistemas automáticos de detecção também enfrentam limitações fora do ambiente controlado. “Em testes práticos, a taxa de acerto cai para algo próximo de 50%. Cada novo modelo de IA obriga as ferramentas de verificação a correr atrás do prejuízo”, explica Pereira.
Diante desse cenário, a análise precisa ir além da imagem. O advogado Daniel Becker, especialista em proteção de dados e inteligência artificial, afirma que o contexto se tornou mais revelador do que o vídeo em si. “Conteúdos fabricados costumam apelar para emoção e urgência. Falta histórico, data clara, fonte verificável. Isso pesa mais do que qualquer detalhe técnico”, diz.
Quando desconfiar, mesmo sem erros visuais
Embora a perfeição técnica seja cada vez mais comum, alguns padrões ainda levantam suspeitas, segundo Becker:
- piscadas muito raras ou excessivamente regulares;
- emoções que mudam de forma mecânica;
- sincronia impecável demais entre voz e movimentos;
- cenários estáveis em excesso, sem ruídos, sombras complexas ou imperfeições naturais.
Paradoxalmente, quanto mais “limpo” e controlado o ambiente, maior a chance de se tratar de uma cena construída digitalmente.
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Um novo jeito de consumir informação
Para os especialistas, a principal mudança precisa ser comportamental. Becker defende o abandono da ideia de que o vídeo, sozinho, comprova um fato. “A imagem em movimento deixou de ser evidência direta da realidade. É preciso desacelerar, buscar confirmação externa e resistir ao impulso de compartilhar”, afirma.
As plataformas digitais até utilizam mecanismos para identificar conteúdo gerado por IA, mas enfrentam o mesmo problema de escala e velocidade. Além disso, há o desafio de diferenciar usos maliciosos de aplicações legítimas. “Marcar tudo indiscriminadamente esvazia o alerta e prejudica quem usa IA de forma ética”, pondera o advogado.
Para Thiago Guedes Pereira, a resposta passa por um tripé: tecnologia, regulação e formação social. “Rótulos ajudam, mas não resolvem sozinhos. Sem educação digital, o efeito é limitado”, diz. Ele defende a inclusão da educação midiática como política pública. “Não é apenas um tema tecnológico. É um desafio social.”
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