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quarta-feira, setembro 16, 2026

Mulher que passou meio século imobilizada pode tornar-se a primeira santa paulista

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Uma mulher que viveu quase toda a vida sem poder deixar a cama pode estar a caminho de se tornar a primeira santa nascida em São Paulo. O Vaticano declarou venerável Maria de Lourdes Guarda, passo fundamental para abertura do processo de beatificação e, futuramente, canonização. O decreto foi autorizado pelo Papa Leão XIV após análise do Dicastério para as Causas dos Santos.

Natural de Salto, cidade do interior paulista, Maria de Lourdes morreu em 1996, aos 70 anos, depois de permanecer imobilizada por quase cinco décadas. Uma lesão grave na coluna, sofrida aos 21 anos, a deixou paralisada da cintura para baixo e interrompeu seu projeto de ingressar na vida religiosa. Mesmo assim, ela encontrou um caminho próprio de serviço espiritual: tornou-se leiga consagrada pelo Instituto Secular Caritas Christi em 1970, e dedicou sua rotina a aconselhar pessoas enfermas, defender os direitos de quem vivia com deficiência e cultivar uma intensa vida de oração.

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Da enfermidade à missão

Filha de imigrantes italianos, Maria de Lourdes cresceu em ambiente religioso e chegou a estudar em internatos católicos. Mas a progressão da doença a levou a longos períodos de internação, especialmente no Hospital Matarazzo, em São Paulo. Ali, seu quarto virou ponto de encontro para quem buscava consolo. O sobrinho, Geraldo Geriel Guarda, conta que familiares, religiosos e desconhecidos batiam à porta em busca de escuta:
“Ela dava conselhos, rezava pelas pessoas… Sempre encontrava palavras de esperança para quem chegava aflito.”

Mesmo vivendo com limitações severas — e tendo perdido uma das pernas devido a complicações médicas —, Maria bordava, fazia crochê e tricô para ajudar a custear tratamentos. E foi além: com apoio do padre Geraldo Nascimento, viajou em uma Kombi adaptada para visitar comunidades vulneráveis e pessoas presas. A iniciativa resultou na criação de mais de 250 núcleos de apoio a pessoas com deficiência durante sua gestão na Fraternidade das Pessoas com Deficiência.

Há relatos marcantes em sua trajetória, como a visita inesperada de Roberto Carlos ao hospital, após receber uma carta em que Maria de Lourdes relatava o sonho de um menino com câncer terminal que ela havia “adotado” espiritualmente.

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Fama de santidade e avanço do processo

A dedicação silenciosa, somada à fé inabalável, fez crescer ao longo dos anos a percepção de que Maria de Lourdes tinha “vida de santa”. A condessa Matarazzo, impressionada com seu testemunho, chegou a assumir todas as despesas hospitalares da paciente. Quando o Matarazzo fechou, ela se tornou sua última moradora permanente.

Maria de Lourdes morreu em 5 de maio de 1996, vítima de câncer na bexiga. Seus restos mortais repousam na matriz de Salto, onde se tornou comum a visita de fiéis que pedem graças por sua intercessão. Embora a investigação seja mantida em sigilo pela Igreja, familiares relatam casos atribuídos à sua intervenção.

O interesse público pelo processo aumentou depois que um artigo publicado no Estadão, em 2003, recuperou uma frase que se tornou símbolo de sua espiritualidade:
“Deixei de andar, não deixei de viver.”

Se canonizada, Maria de Lourdes será a segunda santa paulista — ao lado de Frei Galvão — e a primeira mulher do estado a receber esse título.

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