Um raro acontecimento astronômico pode transformar o céu terrestre em palco de um dos eventos mais brilhantes do século. Estudos recentes indicam que o sistema estelar V Sagittae, localizado na constelação de Sagitta a cerca de 10 mil anos-luz da Terra, está à beira de uma explosão nuclear tão intensa que poderá ser observada a olho nu — inclusive durante o dia.
O sistema é composto por uma anã branca extremamente densa e uma estrela companheira mais massiva. Ambas orbitam tão próximas que completam uma volta em pouco mais de 12 horas, em um processo de aproximação constante. A anã branca, que suga material da outra estrela em ritmo acelerado, tornou-se uma das fontes supersoft de raios-X mais brilhantes já catalogadas, evidência de que uma reação termonuclear persistente está em curso em sua superfície.
Segundo Pablo Rodríguez-Gil, pesquisador do Instituto de Astrofísica das Ilhas Canárias, o cenário indica que uma explosão de nova — uma ejeção abrupta de material acumulado — deve ocorrer nos próximos anos. “O material acumulado na anã branca provavelmente produzirá uma explosão nova nos próximos anos, durante a qual V Sagittae se tornará visível a olho nu”, afirmou ao Live Science.
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Novas medições reacendem debate sobre a massa das estrelas
Uma nova análise, publicada na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, revisitou a luz emitida por V Sagittae com dados coletados ao longo de 120 dias pelo espectrógrafo X-Shooter, do Observatório Europeu do Sul. O instrumento permitiu decompor a luz do sistema em diferentes comprimentos de onda, ferramenta essencial para decifrar sua composição e comportamento.
As observações mais recentes sugerem que as estimativas clássicas — que atribuíam à dupla cerca de 3,5 massas solares combinadas — podem estar incorretas. A equipe liderada pela Universidade de Turku, na Finlândia, aponta que o sistema pode ter menos de 2,1 massas solares, com ambas as estrelas apresentando massas próximas à do Sol.
Phil Charles, da Universidade de Southampton, coautor do estudo, explica que as emissões irregulares do sistema têm dificultado a determinação de parâmetros básicos: “Em nosso estudo mostramos que ninguém conseguiu ainda identificar unicamente o movimento orbital de cada componente e, portanto, ainda não temos uma boa medida da massa de cada estrela”, disse por e-mail.
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Uma “bomba nuclear” à beira do colapso
A intensa transferência de gás da estrela maior para a anã branca é um dos fatores que tornam V Sagittae tão instável. O fluxo cria uma combustão nuclear contínua, produzindo um brilho desproporcional e colocando o sistema no limite de sua sobrevivência.
Explosões de nova, embora intensas, não destruam suas anãs brancas. Porém, para V Sagittae, elas são apenas uma etapa preliminar. Estudos indicam que, quando as duas estrelas finalmente se fundirem, o resultado será uma supernova excepcionalmente luminosa. Rodríguez-Gil afirma que o clarão deverá ser tão forte que poderá ser visto da Terra mesmo sob a luz do Sol.
Uma previsão feita pela Louisiana State University em 2020 sugere que esse colapso final pode ocorrer por volta de 2067, caso a tendência de encurtamento do período orbital continue.
Quando o momento chegar, V Sagittae poderá oferecer à humanidade um espetáculo celeste que não se repete há gerações — e um raro vislumbre de como sistemas binários extremados chegam ao fim.
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