A Creator Economy consolidou-se como um dos setores mais dinâmicos da economia digital, mas seus números revelam um cenário contrastante entre expansão acelerada e desigualdade de oportunidades. Avaliado globalmente em US$ 250 bilhões — com projeções de chegar a US$ 480 bilhões até 2027 — o ecossistema reúne plataformas, marcas, agências, profissionais criativos e, no centro de tudo, os influenciadores.
No Brasil, onde o consumo online cresce ano após ano, o ambiente é fértil: em 2023, 80 milhões de pessoas realizaram compras pela internet, e a monetização ligada à produção de conteúdo aumentou 14% em dois anos, segundo o NIC.br.
Mas o brilho da economia da influência não reflete igualmente na renda de quem cria conteúdo. A quinta edição do estudo “Creators & Negócios”, elaborado pela agência Brunch em parceria com a YOUPIX, aponta que apenas uma pequena elite acumula ganhos elevados. Enquanto cerca de um terço dos creators recebe entre R$ 2 mil e R$ 5 mil mensais, e outros 28% faturam de R$ 5 mil a R$ 10 mil, somente 0,54% superam a marca de R$ 100 mil.
Para Ana Paula Passarelli, cofundadora da Brunch, esses valores exigem contexto. “Quando olhamos para a renda média do brasileiro, não se trata de pouco dinheiro. O problema é que essas cifras representam faturamento, não lucro. Muitos criadores ainda não têm estrutura financeira ou gestão profissional para separar o que é da pessoa e o que é do negócio”, afirma.
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Um ecossistema marcado por recortes sociais
O relatório também dimensiona quem são os influenciadores brasileiros. A maioria é formada por mulheres (70%), residentes no estado de São Paulo (66%) e pessoas brancas (63%). Apenas 17% se identificam como pretas e pouco mais de 16% como pardas. Criadores indígenas e amarelos somam menos de 3%.
A desigualdade se reflete também nos earnings: mulheres e pessoas negras continuam sub-representadas entre os influenciadores mais bem remunerados.
Plataformas preferidas e as engrenagens do negócio
Mesmo com o avanço do TikTok e do YouTube, o Instagram permanece soberano na preferência dos creators — 81% escolhem a rede como principal vitrine e é nela que 97% das marcas concentram sua demanda por campanhas.
Essa dependência reforça um modelo de monetização centrado em publicidade: 72% da renda dos influenciadores vem de parcerias com empresas. Fontes alternativas, como cursos, consultorias, eventos e UGC (conteúdo gerado pelo usuário), aparecem com menor peso. O UGC, apesar de popular, levanta debates sobre falta de regulamentação e possíveis distorções que podem precarizar o setor.
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O dia a dia de quem cria conteúdo
Moda, beleza e lifestyle lideram como principais nichos. Em seguida aparecem saúde e bem-estar, comunicação e design, além de turismo. Grande parte desses creators compartilha conteúdos que atravessam a própria rotina, reforçando a tendência da “vida como pauta”.
A pesquisa mostra ainda que os microcriadores dominam o mercado: 56% possuem entre 1 mil e 50 mil seguidores. Já os influenciadores com mais de 1 milhão de fãs representam menos de 2% — e não necessariamente têm maior poder de conversão. “O mercado entendeu tarde demais que audiência não é sinônimo de influência”, analisa Passarelli.
Desafios que atravessam todos os perfis
Os obstáculos variam conforme o faturamento, mas alguns são comuns a quase todos. Entre quem ganha até R$ 10 mil, organizar a produção diária e encontrar novas formas de monetizar são os maiores entraves. Já para quem está na faixa entre R$ 10 mil e R$ 100 mil, o desafio central é equilibrar criação e gestão — uma rotina que exige habilidades de empreendedorismo.
Ambos os grupos citam ainda a instabilidade de algoritmos, a dificuldade de acessar boas agências e o peso das atividades administrativas como fatores que dificultam o crescimento sustentável.
Mesmo com um cenário complexo, o setor continua em expansão e atrai novos profissionais em ritmo acelerado. A Creator Economy brasileira segue vibrante, mas ainda opera sob lacunas estruturais que precisam ser enfrentadas para transformar influência em carreira sólida — e não apenas em números nas redes.
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