Uma molécula extraída do sangue de uma aranha amazônica pode se tornar uma nova arma contra os fungos resistentes que desafiam a medicina moderna. A descoberta é de pesquisadores do Instituto Butantan, que identificaram na espécie Acanthoscurria rondoniae uma substância com poderosa ação antifúngica e baixa toxicidade para humanos.
Batizada de rondonina, a molécula conseguiu combater fungos dos gêneros Candida e Trichosporon, dois dos principais causadores de infecções hospitalares graves. O estudo foi conduzido pelo grupo do pesquisador Pedro Ismael da Silva Junior, do Laboratório de Toxinologia Aplicada, e publicado na revista científica In Silico Pharmacology.
“A atividade antimicrobiana é a ponta do iceberg. Se uma molécula atua contra microrganismos e não é tóxica para células humanas, há grande chance de que ela possua outras propriedades terapêuticas”, destaca Pedro Ismael, que pesquisa toxinas de aranhas há mais de 30 anos.
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Como age a molécula
A rondonina é um fragmento da hemocianina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio no sangue do aracnídeo. Em simulações computacionais, os cientistas observaram que a substância se liga a duas proteínas vitais dos fungos: uma presente na membrana externa — porta de entrada do composto — e outra ligada ao DNA, responsável por impedir a replicação celular.
Esse duplo ataque explica a alta eficiência da molécula contra fungos unicelulares, como os do gênero Candida, que podem causar infecções letais em pacientes imunossuprimidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), doenças fúngicas afetam cerca de 6,5 milhões de pessoas por ano e causam 2,5 milhões de mortes.
“Construímos computacionalmente a estrutura tridimensional da rondonina e testamos seu encaixe com centenas de proteínas do fungo para entender onde ela age com mais força”, explica Elias Jorge Muniz Seif, coautor do estudo.
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Potencial além dos fungos
Os pesquisadores também sintetizaram versões menores da molécula para testar novas aplicações. Uma delas, chamada RondH, demonstrou atividade antitumoral, reduzindo o avanço de metástases em animais com câncer de pele.
Com apenas 10 aminoácidos, a rondonina e seus fragmentos representam um promissor ponto de partida para o desenvolvimento de terapias contra infecções multirresistentes e tumores agressivos.
O próximo passo da pesquisa é avançar para testes clínicos e modelos mais complexos, aprofundando o entendimento sobre o mecanismo da molécula.
Mais uma vez, o Instituto Butantan mostra que o poder de cura pode estar escondido nos lugares mais inesperados — até mesmo no sangue de uma aranha amazônica.
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