Pesquisadores registraram um comportamento inédito entre macacos-prego-de-cara-branca (Cebus capucinus) em uma ilha do Panamá: jovens machos sequestrando filhotes de bugios, outra espécie de primata. O caso foi descrito em um estudo publicado nesta segunda-feira (19) na revista Current Biology e tem intrigado cientistas pelo caráter incomum — e aparentemente sem propósito — da prática.
As primeiras imagens foram captadas por câmeras instaladas na ilha de Jicarón, no Parque Nacional de Coiba, onde uma população de macacos-prego já chamava a atenção pelo uso de ferramentas de pedra. Em 2022, a doutoranda Zoë Goldsborough identificou o que parecia ser um caso isolado: um macaco-prego carregando um bebê bugio nas costas.
No entanto, ao revisarem milhares de registros acumulados desde 2017, os cientistas encontraram 11 casos ao longo de 15 meses, todos protagonizados por cinco jovens machos, sendo o principal deles apelidado de “Coringa”.
Uma “moda” entre os jovens
O que inicialmente parecia um desvio de comportamento individual se mostrou um fenômeno social. Segundo os pesquisadores, os sequestros se espalharam como uma tradição cultural entre os machos mais jovens da espécie. Os filhotes de bugio eram carregados por dias seguidos — até nove — e os macacos continuavam suas atividades normais, como forragear e usar ferramentas.
Apesar de não haver indícios de agressividade ou intenção de se alimentar dos bebês, o comportamento teve consequências trágicas: nenhum dos filhotes sobreviveu. Sem acesso ao leite materno e aos cuidados de sua espécie, os bugios provavelmente morreram de fome e exaustão.
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Sem benefício aparente
Diferente de casos raros de adoção entre espécies, que costumam envolver fêmeas e podem ter razões instintivas ou sociais, os cientistas não identificaram nenhum ganho evolutivo ou funcional para os macacos-prego machos envolvidos. “Eles não brincavam com os filhotes, não ganhavam status no grupo, nem recebiam atenção extra”, explica Brendan Barrett, coautor do estudo.
Para os pesquisadores, o caso demonstra o potencial das culturas animais de evoluírem sem utilidade prática, apenas pela repetição de comportamentos aprendidos socialmente. “Assim como humanos, animais também podem criar tradições sem sentido direto, o que pode gerar consequências imprevisíveis para o ecossistema”, observa Barrett.
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Fator “tédio” e curiosidade juvenil
A equipe especula que o ambiente isolado e estável da ilha pode ter favorecido o surgimento da prática. Com poucos predadores e alimentos abundantes, os macacos jovens teriam mais tempo para explorar comportamentos novos — inclusive potencialmente prejudiciais a outras espécies, como os bugios, que já enfrentam risco de extinção local.
A pesquisa continua em andamento e os cientistas seguem monitorando os grupos de macacos para entender se o comportamento persiste e como pode impactar a biodiversidade da região.
“Foi impactante ver esse comportamento se espalhar. É um lembrete de como a cultura animal pode ser complexa — e, às vezes, perturbadora”, conclui a antropóloga Meg Crofoot, coautora do estudo.
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