A ascensão de grupos extremistas que operam no submundo digital tem despertado preocupação entre educadores, autoridades e especialistas em segurança da informação. Entre esses grupos, os chamados “redpill” se destacam por aliciar adolescentes em redes como o Telegram, promovendo discursos misóginos, autoritários e antidemocráticos. A estratégia se baseia em promessas de pertencimento e controle — disfarçadas de autoajuda, mas com alto potencial de radicalização.
O pesquisador Ergon Cugler, da Universidade de São Paulo (USP), tem se dedicado a mapear essas redes e aponta que o fenômeno deixou de ser periférico. “As plataformas digitais têm exposto jovens a conteúdos violentos e desumanizantes de forma contínua e sem qualquer tipo de regulação”, afirma.
Redpill: da autoajuda ao extremismo
A expressão “redpill” tem origem no filme Matrix (1999), em que o protagonista escolhe entre uma pílula azul (manter-se na ilusão) e uma vermelha (descobrir a verdade). No ambiente digital, o termo foi apropriado por grupos que pregam um “despertar” para uma realidade baseada no desprezo pela diversidade, pelo feminismo e pelos direitos humanos.
Adolescentes são atraídos inicialmente por memes e vídeos com críticas à “lacração” ou ao “politicamente correto”. Em pouco tempo, são apresentados a influenciadores com falas sobre masculinidade tóxica, desinformação científica e culto à autoridade. “Eles passam a ver o mundo como uma guerra cultural, em que a empatia é tratada como fraqueza”, explica Cugler.
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Telegram como espaço fértil para radicalização
Um dos ambientes mais utilizados por essas comunidades é o Telegram, por permitir anonimato, pouca moderação e integração entre canais extremistas. Dados reunidos entre março de 2019 e março de 2025 mostram que o Brasil concentra mais da metade das publicações em comunidades anti-woke e redpill da América Latina, com 1,8 milhão de posts e quase 88 mil usuários ativos apenas nos grupos redpill.
A estrutura desses canais opera como uma teia: grupos antivacina convidam para canais anti-woke, que por sua vez redirecionam para comunidades da chamada “machosfera”. “Antes de mergulhar em discursos misóginos, o adolescente já teve contato com conteúdos conspiratórios e negacionistas”, afirma o pesquisador.
Uma pedagogia do ressentimento
Segundo Cugler, esses grupos não vendem apenas ideias, mas também uma pedagogia emocional baseada em ressentimento. Jovens frustrados passam a enxergar seus problemas como consequência de um sistema que os “oprime”. A adesão a essas comunidades transforma o sentimento de impotência em uma narrativa de força e superioridade, onde ser “redpillado” significa estar desperto e acima da média.
“É uma fantasia de libertação que, na prática, promove intolerância, isolamento e desprezo pela democracia”, alerta.
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Algoritmos que alimentam o ódio
O funcionamento das plataformas também contribui para a radicalização. O Telegram, por exemplo, recomenda automaticamente canais com base em interesses similares. Assim, um jovem que entra em um grupo de memes pode, em poucos cliques, estar consumindo conteúdos sobre supremacia racial, armamentismo ou “cura gay”.
“O problema não é só a ausência de regulação, mas uma arquitetura pensada para amplificar discursos extremistas, que geram alto engajamento”, explica Cugler.
Iniciativas tentam conter avanço
Diante do cenário, algumas iniciativas legislativas começam a surgir. Em São Paulo, foi protocolada uma CPI para investigar a atuação das big techs na exposição de menores a conteúdos tóxicos. No Congresso Nacional, tramita o PL 2630/2020, que trata da responsabilização de plataformas, e o PL 2628/2022, voltado à proteção infantil no ambiente digital.
Mas, para Cugler, isso ainda é insuficiente. “Precisamos construir uma infraestrutura digital nacional, com inteligência artificial que respeite os direitos humanos e garanta soberania de dados”, conclui.



