Enquanto o mundo vive uma retração nas condições para o jornalismo, o Brasil contrariou a tendência e avançou significativamente no principal levantamento internacional sobre o tema. O país subiu 47 posições no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, elaborado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), ocupando agora o 63º lugar entre 180 países avaliados.
A melhora é atribuída à redução de hostilidade institucional contra jornalistas, especialmente após o fim do governo Bolsonaro, período citado pelos pesquisadores como de forte tensão entre imprensa e autoridades. O estudo, divulgado nesta sexta-feira (3), destaca que apenas uma minoria das nações apresentou avanços semelhantes em 2025.
Apesar do bom desempenho brasileiro, o cenário global é considerado alarmante. Pela primeira vez, metade dos países analisados apresenta condições classificadas como “ruins” para o exercício do jornalismo. Em apenas 25% deles a situação é considerada “satisfatória”.
A pontuação média mundial caiu para menos de 55 pontos, o que caracteriza um ambiente “difícil” para a liberdade de imprensa. A própria RSF alertou para o aumento de riscos físicos e psicológicos aos profissionais da área e para o agravamento das interferências políticas, econômicas e jurídicas no trabalho jornalístico.
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Crise econômica e concentração midiática pressionam setor
Entre os cinco critérios usados pela RSF para calcular o ranking — político, legal, econômico, social e segurança —, o aspecto econômico foi o que mais influenciou os resultados de 2025. A organização chama atenção para o aumento da concentração da mídia, interferências de anunciantes e o enfraquecimento financeiro de veículos independentes, que, muitas vezes, acabam reféns de interesses públicos ou privados.
“Sem recursos sustentáveis e independentes, não há como garantir uma imprensa livre, confiável e voltada ao interesse público”, afirmou Anne Bocandé, diretora editorial da entidade.
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Retrocessos preocupam em outros países da América Latina
Se o Brasil avançou, outros países da América Latina registraram queda brusca no ranking. A Argentina despencou para a 87ª posição, com a RSF apontando medidas autoritárias do presidente Javier Milei, como o desmonte da mídia estatal e a retaliação a jornalistas críticos. O Peru caiu ainda mais — 130º lugar — devido a perseguições judiciais, campanhas de desinformação e pressões contra veículos independentes.
Nos Estados Unidos, o clima também é considerado hostil. O retorno de Donald Trump ao poder foi acompanhado por ataques à imprensa e redução do apoio institucional à mídia independente. O país ocupa atualmente a 57ª posição, enquanto jornais locais desaparecem e a confiança da população nas notícias encolhe.
Guerra, desinformação e big techs agravam cenário
Regiões como o Oriente Médio e o Norte da África seguem sendo as mais perigosas do planeta para jornalistas. Em Gaza, o exército israelense foi responsabilizado por ataques sistemáticos contra profissionais da imprensa, agravando um quadro que a RSF já classificava como “muito grave”.
Outro ponto de destaque no relatório é o impacto das grandes plataformas digitais. A RSF criticou o domínio das chamadas “big techs” — Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft — sobre a distribuição de informações e receitas publicitárias. O avanço dessas empresas, sem regulação adequada, compromete a sustentabilidade do jornalismo e facilita a disseminação de conteúdos enganosos.
Em 2024, o investimento global em anúncios em redes sociais chegou a US$ 247 bilhões, valor que reforça a migração de recursos antes destinados a veículos jornalísticos tradicionais. A RSF alerta que, sem pluralidade e independência, o jornalismo perde sua função essencial de fiscalização e serviço ao cidadão.
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