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quinta-feira, agosto 20, 2026

Trump está sediando a Copa do Mundo — e mal aparece nela

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Quando os Estados Unidos conquistaram o direito de sediar a Copa do Mundo de 2026, a imagem natural seria a de um presidente orgulhoso no campo, diante de câmeras do mundo inteiro. Donald Trump fez o oposto: mandou o secretário de Estado, Marco Rubio, em seu lugar na estreia americana.

A goleada de 4 a 1 sobre o Paraguai, no dia 12, em Los Angeles, foi celebrada por Trump apenas nas redes sociais — com uma mensagem de parabéns publicada depois do apito final. Antes do jogo, ele telefonou ao técnico Mauricio Pochettino para desejar boa sorte. Mas estar lá, pessoalmente, não era prioridade. No mesmo fim de semana, o presidente completou 80 anos e promoveu um evento de UFC nos jardins da Casa Branca.

Não foi só Trump. Os outros dois chefes de Estado anfitriões também ficaram de fora da abertura: o primeiro-ministro canadense Mark Carney estava na França para a cúpula do G7, e a presidente mexicana Claudia Sheinbaum declarou que não assistiria a nenhuma partida em solidariedade aos compatriotas que não têm como pagar pelos ingressos. A diferença é que Trump é o anfitrião da sede majoritária do torneio — 75% dos jogos acontecem em território americano — e sua ausência tem um peso simbólico distinto.

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O contexto político interno ajuda a explicar o cálculo. Com aprovação em torno de 35%, o presidente enfrenta um momento de desgaste doméstico acentuado. Dias antes da abertura, sua imagem apareceu no telão do Madison Square Garden durante as finais da NBA e foi recebida com vaias sonoras. O episódio expôs as dificuldades de Trump em transformar grandes eventos públicos em trunfos políticos.

Para Vitor de Pieri, professor de Geografia Humana da UERJ, a postura reflete algo mais estrutural do que uma questão de agenda. “Enquanto outros governos enxergariam a Copa como uma oportunidade de fortalecer a imagem do país perante o mundo, a administração Trump parece vê-la principalmente como um desafio operacional ligado à segurança, ao controle de fronteiras e à gestão dos fluxos migratórios”, analisa o pesquisador.

Essa contradição se materializou em episódios concretos ao longo da preparação para o torneio. O árbitro somali Omar Artan foi deportado após ser interrogado por autoridades de imigração americanas, tornando-se símbolo do conflito entre a política de fronteiras da Casa Branca e a tradição da Fifa de garantir livre circulação durante Mundiais. A seleção do Irã — país em guerra com os EUA até a semana passada — foi obrigada a instalar sua base no México e entrar no território americano apenas nos dias de jogo.

Nos bastidores, porém, a influência de Trump sobre a Copa foi profunda. A relação próxima entre o presidente e o chefe da Fifa, Gianni Infantino, moldou uma edição do torneio com o que o próprio dirigente chamou de “DNA dos EUA” — das regras operacionais ao modelo de segurança adotado, passando pela adaptação das normas de imigração às exigências da Casa Branca.

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Andrew Giuliani, diretor-executivo da força-tarefa da Casa Branca para a Copa, fez questão de deixar a porta aberta: “Conhecendo Trump, espere o inesperado. Não me surpreenderia vê-lo cada vez mais envolvido ao longo do torneio.”

Por ora, a mensagem que a ausência envia é clara: numa agenda marcada por conflitos, disputas tarifárias, queda de popularidade e a ressaca de um acordo de paz com o Irã, a Copa do Mundo não é a prioridade número um da Casa Branca — mesmo quando ela acontece na casa do anfitrião.

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