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quarta-feira, setembro 16, 2026

Sinal misterioso captado por sonda reacende debate sobre raios em Marte

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Um ruído breve, quase imperceptível, captado em meio a milhares de medições espaciais, colocou Marte novamente no centro das discussões científicas. Pesquisadores identificaram, pela primeira vez, um sinal compatível com relâmpagos na atmosfera marciana — um indício de que o planeta pode gerar descargas elétricas, ainda que em condições muito diferentes das encontradas na Terra.

O registro foi feito pela sonda MAVEN, da NASA, em 21 de junho de 2015. O dado, no entanto, só ganhou relevância após uma análise detalhada de mais de 108 mil medições de ondas de plasma. Entre todos os registros examinados, apenas um apresentou as características típicas de um “assobio” eletromagnético — fenômeno associado a raios.

O estudo, publicado em 27 de fevereiro na revista Science Advances, foi liderado pelo físico atmosférico František Němec, da Universidade Carolina, na República Tcheca. Segundo os pesquisadores, o padrão detectado segue os mesmos princípios físicos observados nas descargas elétricas terrestres, reforçando a hipótese de que relâmpagos também podem ocorrer em Marte.

Na Terra, raios costumam surgir em nuvens carregadas de vapor d’água, onde o atrito entre partículas favorece o acúmulo de cargas elétricas. Marte, por outro lado, possui uma atmosfera extremamente seca — fator que durante décadas alimentou dúvidas sobre a existência desse tipo de fenômeno no planeta vermelho.

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A ausência de umidade significativa, porém, não impede a formação de descargas. Na própria Terra, nuvens de cinzas vulcânicas já demonstraram que partículas sólidas em movimento podem gerar eletricidade estática. Em Marte, a explicação mais plausível envolve as gigantescas tempestades de poeira que periodicamente envolvem o planeta. O atrito constante entre grãos de areia poderia produzir carga suficiente para desencadear relâmpagos.

O chamado “assobio” ocorre quando uma descarga elétrica emite radiação eletromagnética que inclui ondas de rádio de baixa frequência. Ao atravessar a ionosfera e seguir linhas de campo magnético, essas ondas se dispersam: frequências mais altas chegam antes, enquanto as mais baixas demoram mais. Convertido em som, o resultado é um tom descendente — descrito como semelhante ao canto distante de uma baleia.

Um dos principais obstáculos para essa interpretação sempre foi a falta de um campo magnético global em Marte. Diferentemente da Terra, o planeta perdeu essa proteção há bilhões de anos. Ainda assim, partes da crosta marciana preservam campos magnéticos locais — vestígios fossilizados de um antigo campo planetário — que podem funcionar como canais para a propagação dessas ondas.

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O sinal foi captado a cerca de 349 quilômetros de altitude, justamente sobre uma dessas regiões magnetizadas e no lado noturno do planeta. Esse conjunto específico de condições foi decisivo para a detecção. Durante o dia, a radiação solar altera a estrutura da ionosfera marciana, dificultando a propagação das ondas e tornando registros desse tipo ainda mais raros.

O evento teve duração aproximada de 0,4 segundo e apresentou frequência decrescente ao longo do tempo, padrão compatível com os “assobios” associados a raios. Embora a intensidade medida tenha sido considerada modesta, modelos teóricos indicam que a descarga original pode ter alcançado energia comparável à de um relâmpago intenso na Terra.

Para os cientistas, o achado pode representar apenas a ponta do iceberg. Menos de 1% das medições disponíveis foram realizadas em regiões com configuração magnética favorável para captar esse tipo de sinal. A combinação entre local adequado, momento certo e presença de um equipamento sensível em órbita torna a detecção extremamente incomum.

Além de ampliar o entendimento sobre o clima marciano, a descoberta tem implicações que vão além da meteorologia. Experimentos laboratoriais já demonstraram que descargas elétricas podem estimular a formação de moléculas orgânicas complexas — processo semelhante ao que pode ter contribuído para o surgimento da vida na Terra primitiva.

Se fenômenos semelhantes ocorreram repetidamente ao longo da história de Marte, eles podem ter desempenhado papel relevante na química pré-biótica do planeta. O registro desse discreto “assobio” reacende, assim, uma pergunta que há décadas mobiliza cientistas e missões espaciais: Marte já teve — ou ainda pode ter — condições favoráveis à vida?

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