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quarta-feira, setembro 16, 2026

O que realmente pinta de vermelho as “Cachoeiras de Sangue” na Antártida

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Um dos cenários mais intrigantes do continente gelado acaba de ganhar explicação mais detalhada. As chamadas “Cachoeiras de Sangue”, que escorrem pela Geleira Taylor em direção ao Lago Bonney, são resultado de um processo químico e geológico que vai muito além da aparência dramática.

A coloração vermelho-escura já era atribuída à presença de salmoura rica em ferro presa sob o gelo. Quando esse líquido entra em contato com o oxigênio do ar, o ferro oxida rapidamente, adquirindo o tom que lembra sangue. O que permanecia pouco compreendido era como esses vazamentos afetam a própria estrutura da geleira e o ecossistema ao redor.

Um estudo publicado na revista Antarctic Science conseguiu registrar em detalhes um episódio prolongado de liberação de salmoura ocorrido entre setembro e outubro de 2018. Pesquisadores combinaram imagens de lapso de tempo, dados de GPS instalados sobre o gelo e sensores térmicos posicionados em diferentes profundidades do lago.

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Pressão sob o gelo

Os registros mostraram que a salmoura emergiu de forma intermitente ao longo de quase um mês. No mesmo período, a Geleira Taylor apresentou um leve rebaixamento de cerca de 15 milímetros e desacelerou seu deslocamento anual — de aproximadamente 5 metros para 4,6 metros por ano.

A explicação está na dinâmica da água subglacial. Sob pressão, a salmoura atua como suporte hidráulico, ajudando a sustentar o peso do gelo, além de funcionar como lubrificante natural, facilitando o deslizamento da geleira sobre a rocha. Quando o fluido encontra uma saída e é liberado, a pressão diminui, o gelo perde parte desse “amortecedor” e se ajusta ligeiramente para baixo, reduzindo também sua velocidade.

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Efeitos no Lago Bonney

O impacto não se limita ao gelo. Sensores instalados no Lago Bonney detectaram quedas bruscas de temperatura em determinadas camadas, chegando a cerca de -1,5°C. A salmoura que escorre é extremamente fria e densa; ao entrar no lago, afunda até atingir uma profundidade de equilíbrio, próxima a 18 metros, espalhando-se horizontalmente.

Essas injeções episódicas alteram a estratificação térmica da água e podem influenciar a circulação de nutrientes. Em um ambiente extremo como os Vales Secos de McMurdo, onde microrganismos sobrevivem em condições delicadamente equilibradas, qualquer mudança na dinâmica do lago pode ter consequências ecológicas relevantes.

Ao integrar observações visuais, medições geodésicas e dados térmicos, o estudo revela que as “Cachoeiras de Sangue” não são apenas um espetáculo visual, mas parte de um sistema subglacial ativo e complexo — um lembrete de que, mesmo no continente mais frio do planeta, processos invisíveis seguem moldando a paisagem.

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