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quarta-feira, setembro 16, 2026

Estudo revela que bonobo Kanzi compreendia brincadeiras de faz de conta

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Um novo estudo científico indica que a capacidade de participar de brincadeiras de faz de conta pode não ser uma exclusividade dos seres humanos. Pesquisadores demonstraram, por meio de experimentos controlados, que Kanzi, um bonobo conhecido por compreender comandos em inglês, foi capaz de acompanhar situações imaginárias envolvendo objetos inexistentes.

A pesquisa foi publicada nesta quinta-feira (5) na revista Science e analisou a habilidade de Kanzi de “rastrear” mentalmente líquidos e alimentos fictícios durante encenações conduzidas por humanos. O animal, que morreu em março de 2025, não iniciava espontaneamente esse tipo de brincadeira, mas demonstrou entender e sustentar cenários simulados quando convidado a participar.

Durante os testes, Kanzi acompanhou situações como beber suco inexistente ou “comer” uvas imaginárias, comportamento comparável ao de crianças humanas em torno dos dois anos de idade. Para os pesquisadores, essa resposta indica a presença de mecanismos cognitivos associados à imaginação simbólica.

“Ficamos realmente impressionados com essa descoberta”, afirmou Christopher Krupenye, coautor do estudo e professor assistente de ciências psicológicas e do cérebro da Universidade Johns Hopkins. “O que estamos vendo neste caso é que… algo que parece ser fundamentalmente humano e que está emergindo no início do nosso desenvolvimento humano também é compartilhado com nossos parentes mais próximos”, completou.

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Experimentos controlados

Para testar se o bonobo apenas confundia objetos reais com imaginários, os pesquisadores desenharam uma série de experimentos. Na primeira fase, Kanzi foi treinado a identificar corretamente qual recipiente continha suco verdadeiro entre garrafas transparentes, tarefa que executou com 100% de acerto.

Em seguida, os cientistas passaram a simular o despejo de suco inexistente em copos vazios, retirando o líquido imaginário de apenas um deles. Mesmo sem receber recompensas ou feedback, Kanzi apontou corretamente o copo que ainda “continha” o suco fictício em 68% das tentativas.

Para descartar a hipótese de que o animal acreditava estar diante de líquido real, os pesquisadores realizaram um novo teste combinando suco verdadeiro e encenações falsas. Nesse cenário, Kanzi escolheu o copo com suco real em 77,8% das vezes. “Se Kanzi realmente acreditasse que ambos os copos continham suco, ele escolheria os dois com a mesma frequência”, explicou Krupenye.

Resultados semelhantes foram obtidos em um terceiro experimento, desta vez envolvendo uma uva imaginária, reforçando a interpretação de que o bonobo conseguia distinguir entre o que era real e o que fazia parte da encenação.

“Isso meio que nos deu confiança de que estávamos realmente olhando para alguma habilidade de rastrear objetos imaginários ou de mentira”, afirmou o pesquisador.

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Implicações e limites

Segundo os autores, os achados sugerem que a capacidade de imaginar objetos inexistentes pode ter surgido antes da separação evolutiva entre humanos e bonobos, ocorrida há mais de 6 milhões de anos. Observações anteriores já indicavam comportamentos simbólicos em grandes símios, mas sempre deixavam margem para interpretações alternativas.

Apesar do avanço, o estudo tem limitações importantes. A principal delas é o fato de envolver apenas um indivíduo. Ainda assim, especialistas consideram a pesquisa um marco experimental. Para a antropóloga evolutiva Laura Simone Lewis, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, trata-se da evidência mais sólida até agora de que grandes símios podem participar de brincadeiras de faz de conta.

Os próprios autores ressaltam que os resultados não indicam que Kanzi criasse cenários imaginários por conta própria, mas que era capaz de compreender e sustentar situações simuladas propostas por humanos. “Acho que seria um grande salto dizer que estamos vendo algo comparável ao que observamos em crianças pequenas, que produzem o fingimento de forma espontânea”, avaliou Paul Harris, psicólogo da Universidade de Harvard.

A equipe agora pretende ampliar os experimentos para outros grandes símios. “Se as observações anedóticas estiverem corretas, outros macacos também devem compartilhar essa capacidade”, concluiu Krupenye.

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