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quarta-feira, setembro 16, 2026

Caso Orelha expõe submundo digital que transforma crueldade animal em entretenimento

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A morte do cão comunitário Orelha, ocorrida no início de janeiro na Praia Brava, em Florianópolis, ultrapassou os limites de um crime isolado e reacendeu o debate sobre a existência de redes digitais dedicadas à violência contra animais. Especialistas apontam que o caso ajuda a iluminar um fenômeno conhecido como zoosadismo — prática em que o sofrimento animal é explorado como forma de prazer, status ou lucro na internet.

Embora não haja indícios de que os quatro adolescentes investigados pelo assassinato do animal façam parte dessas redes organizadas, o episódio chamou atenção para um ecossistema virtual onde agressões são estimuladas, encomendadas e monetizadas por meio de vídeos e transmissões em plataformas digitais.

Segundo análises citadas por veículos internacionais, trata-se de um submundo em que a violência gera reconhecimento entre usuários e funciona como moeda simbólica. Jovens expostos a esse tipo de conteúdo tendem a banalizar a crueldade, transformando o sofrimento de animais em entretenimento extremo.

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Plataformas digitais e circulação da violência

Investigações recentes mostram que crimes desse tipo se espalham principalmente em grandes plataformas de tecnologia. Em 2023, reportagens revelaram que usuários da Europa e dos Estados Unidos pagavam por vídeos de filhotes de macaco sendo torturados na Indonésia. Em outro levantamento, grupos foram identificados utilizando canais no Telegram e no YouTube para divulgar cenas de violência contra gatos.

Um estudo conduzido por uma organização internacional de proteção animal analisou cerca de dois mil links denunciados ao longo de 2024 e apontou que redes pertencentes à Meta concentravam quase 90% do conteúdo identificado. Ainda assim, apenas 36% dos vídeos denunciados haviam sido removidos até a conclusão da análise.

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Reação legal e impacto no Brasil

No Brasil, o endurecimento da legislação em 2020 ampliou as penas para maus-tratos contra cães e gatos, prevendo reclusão de dois a cinco anos. Desde então, o número de processos judiciais relacionados à violência contra animais cresceu cerca de 1.400%, segundo dados do Judiciário.

A repercussão do caso Orelha também teve efeitos diretos em Santa Catarina. O estado aprovou a Lei nº 19.726, que estabelece medidas de proteção para cães e gatos comunitários — animais que vivem em espaços públicos, mas recebem cuidados da população local.

Investigação em andamento

No desdobramento do caso, a polícia indiciou familiares de adolescentes investigados por suposta tentativa de intimidação de testemunhas. Os jovens suspeitos, por serem menores de idade, estão sujeitos a medidas socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente. As autoridades também analisam celulares e dezenas de horas de vídeos para concluir o inquérito.

Especialistas defendem que, além da responsabilização criminal, é fundamental que famílias acompanhem de perto o consumo digital de crianças e adolescentes. Há ainda pressão crescente para que empresas de tecnologia sejam responsabilizadas caso continuem permitindo a circulação de conteúdos que incentivem ou normalizem crimes contra animais.

Para pesquisadores da área, o caso Orelha deixa um alerta claro: a violência não nasce apenas fora das telas — muitas vezes, ela é aprendida, estimulada e recompensada dentro delas.

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