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quarta-feira, setembro 16, 2026

Guerra comercial entre EUA e Europa abre janela estratégica para o Brasil no cenário global

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A retomada de uma política comercial mais agressiva pelos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, voltou a tensionar as relações entre Washington e Bruxelas e redesenhou o tabuleiro do comércio internacional. Em meio a esse embate, o Brasil surge como um dos países com maior potencial de ganho estratégico, tanto no fluxo de comércio quanto na atração de capital estrangeiro.

No último sábado (17), Trump anunciou a imposição de tarifas de 10% sobre produtos importados de oito países europeus a partir de 1º de fevereiro, incluindo Alemanha, Reino Unido, França, Dinamarca e Países Baixos. A resposta veio rapidamente: a União Europeia passou a avaliar a adoção de tarifas retaliatórias que podem chegar a 93 bilhões de euros contra produtos norte-americanos.

Foi nesse ambiente de escalada protecionista que Bruxelas decidiu acelerar uma mudança estratégica e oficializou o acordo de livre comércio com o Mercosul, movimento interpretado como uma tentativa de reduzir a dependência econômica dos Estados Unidos.

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Acordo vai além das tarifas e pode mudar o jogo financeiro

Embora o impacto comercial do acordo seja relevante, analistas avaliam que seus efeitos mais profundos podem ocorrer fora das estatísticas de exportação. Relatório do BTG Pactual aponta que o Brasil tem potencial para dobrar ou até triplicar suas vendas ao mercado europeu nos próximos anos.

Para o professor de finanças Marcos Crivelaro, da Fundação Vanzolini, o principal ganho não está apenas na redução de tarifas. “O maior efeito do acordo não é tarifário, mas sim financeiro. Ele reduz incerteza institucional e pode diminuir o custo de capital do país”, afirma.

Segundo ele, a integração entre os blocos envolve também sistemas financeiros, maior uso do euro em transações, interesse europeu em soluções como o PIX e até o retorno de bancos europeus ao Brasil. Esse movimento tende a reduzir a dependência do dólar e diversificar a inserção brasileira na economia global.

Investimentos e integração a cadeias sofisticadas

O tratado também cria condições para uma nova onda de investimentos voltados a tecnologia, valor agregado e padronização produtiva. Com regras comuns, o Brasil pode se integrar a cadeias globais mais sofisticadas, como alimentos premium, bioinsumos e máquinas agrícolas avançadas.

Crivelaro destaca que o desafio está na industrialização e na adaptação aos padrões europeus. “O europeu ficaria maluco com geleias de cupuaçu, açaí, cocada. Precisamos trazer a tecnologia de industrialização deles para os nossos insumos”, observa. Para ele, o ganho estrutural dessa transformação supera efeitos pontuais sobre a balança comercial.

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Agronegócio deve sentir efeitos mais rápidos

No curto prazo, o agronegócio tende a ser o setor mais beneficiado. O acordo prevê uma cota inicial de 16,5 mil toneladas de carne bovina com tarifa reduzida de 7,5%, que deverá crescer gradualmente até 99 mil toneladas em 2031, segundo dados do BTG Pactual. Analistas estimam que cerca de 42% desse volume fique com o Brasil.

Em 2025, o país exportou 128,9 mil toneladas de carne bovina para a União Europeia, gerando US$ 1,06 bilhão em receita, conforme dados da Abiec. Embora a Europa não substitua mercados como Ásia e Estados Unidos, ela oferece maior valor agregado e previsibilidade regulatória.

Para açúcar e etanol, o acordo melhora condições de preço, mas não altera de forma significativa os volumes. Já no café, a eliminação gradual da tarifa de 7,5% tende a reforçar a competitividade brasileira em seu principal mercado externo.

Brasil ganha espaço em meio à disputa global

Com Estados Unidos e Europa em rota de colisão comercial, o Brasil passa a ocupar uma posição estratégica como parceiro alternativo, fornecedor confiável e destino de investimentos. A combinação de acesso ampliado a mercados, redução de riscos institucionais e integração financeira pode transformar o país em um dos principais beneficiários indiretos da nova configuração geopolítica do comércio global.

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