A Creator Economy entrou em uma nova etapa no Brasil. Após anos de testes, ajustes e crescimento desordenado, o setor passou a operar em lógica industrial, com regras mais claras, expectativas de retorno financeiro e integração direta aos modelos de marketing, vendas e performance das marcas.
Entre 2024 e 2025, o mercado atravessou um ponto de virada. O que antes girava em torno de alcance, curtidas e engajamento simbólico passou a ser medido por previsibilidade de receita, conversão e impacto econômico. Esse movimento sustenta uma expansão robusta: o setor brasileiro movimentou US$ 5,47 bilhões em 2025 e pode chegar a US$ 33,5 bilhões até 2034, segundo o relatório “O Horizonte da Creator Economy no Brasil”, da Noodle. A taxa média de crescimento anual projetada é de 22,34% entre 2026 e 2034.
No cenário regional, o Brasil assume papel de liderança. A América Latina, como um todo, deve sair de US$ 38,5 bilhões em 2025 para mais de US$ 112 bilhões até 2031, com o mercado brasileiro funcionando como principal motor desse avanço.
Para Carolina Rossettini, COO e sócia da Noodle, a mudança é estrutural. “A Creator Economy no Brasil deixou de ser um território de experimentação e passou a operar como uma indústria. Em 2026, a discussão não será mais sobre alcance ou likes, mas sobre previsibilidade de receita, compliance e conversão real”, avalia.
Publicidade digital no centro da estratégia
O amadurecimento da Creator Economy ocorre em paralelo a uma transformação no investimento publicitário. Entre janeiro e setembro de 2024, a internet concentrou 39,5% de todo o investimento em mídia no país, somando R$ 7,045 bilhões. No mesmo período, a TV aberta respondeu por 37,7%, com R$ 6,726 bilhões — a primeira vez que o digital superou a televisão em volume financeiro.
A inversão consolida uma tendência. Em 2022, a TV aberta ainda liderava com folga; em 2023, a diferença diminuiu; em 2024, o digital assumiu a dianteira. Para 2026, campanhas passam a ser pensadas sob uma lógica digital-first, com a televisão ocupando um papel complementar.
Essa mudança também altera a disputa pela atenção. O antigo conceito de “horário nobre” perde força, substituído por uma lógica contínua, distribuída ao longo do dia. Nesse contexto, 61% dos profissionais de marketing planejam ampliar os investimentos em influência nos próximos 12 meses, priorizando contratos recorrentes e estratégias always-on.
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Influência como infraestrutura de vendas
Em vez de grandes ações pontuais, marcas passam a operar com redes extensas de criadores, gerando centenas ou milhares de variações criativas testadas em tempo real. Parte relevante do orçamento migra da produção centralizada para modelos descentralizados, orientados por performance.
Segundo Carolina Rossettini, os criadores deixam de ser apenas veículos de comunicação e passam a integrar diretamente a engrenagem comercial das empresas. “Quem não conseguir provar impacto econômico, seja em vendas, aquisição ou retenção, tende a ficar fora dos grandes orçamentos. Influência deixa de ser mídia e passa a ser infraestrutura de negócio”, afirma.
O avanço do retail media reforça esse movimento. Na América Latina, o investimento no setor deve crescer de US$ 1,84 bilhão em 2024 para US$ 5,45 bilhões em 2028. No Brasil, essa expansão se conecta ao crescimento do social commerce. Plataformas como o TikTok Shop já registraram saltos expressivos de receita, com crescimento de até 26 vezes nos primeiros meses de operação no país.
Novos modelos, novas exigências
A profissionalização também redefine a remuneração dos criadores. O cachê fixo perde protagonismo para modelos híbridos, que combinam um valor base com parcelas variáveis atreladas ao desempenho. Em operações de e-commerce, canais de afiliados já respondem por até 49% das vendas, enquanto 37% das empresas indicam aumento dos orçamentos destinados a esse formato.
A chamada “cauda longa” ganha relevância estratégica. Nano-influenciadores apresentam taxas médias de engajamento entre 4% e 8%, enquanto grandes perfis, com mais de 500 mil seguidores, ficam abaixo de 1,5%. Para 2026, cresce a demanda por plataformas capazes de gerenciar simultaneamente centenas de criadores, ampliando escala com menor custo unitário.
O avanço regulatório acompanha esse processo. A atividade de influenciadores passa a ser discutida sob aspectos como formalização fiscal, exigência de CNPJ, responsabilidade das plataformas e até vínculo trabalhista. Grandes anunciantes já impõem critérios mais rígidos de compliance e conformidade tributária.
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Um mercado maior — e mais competitivo
O número de influenciadores no Brasil cresceu 67% em apenas um ano, saltando de 1,2 milhão em março de 2024 para 2 milhões em março de 2025. A expansão intensifica a concorrência e acelera a demanda por soluções de gestão, tecnologia e serviços financeiros.
Apesar do amadurecimento, a mensuração ainda é um desafio. Cerca de 82% dos líderes de marketing afirmam ter dificuldade em medir o impacto real das campanhas. Ainda assim, a prioridade mudou: 69% dos CMOs já apontam vendas e conversão como principal métrica, superando indicadores de visibilidade e reconhecimento de marca.
Em 2026, a Creator Economy deixa definitivamente o campo da experimentação. Para marcas, o desafio será lidar com a complexidade operacional. Para criadores, a sobrevivência dependerá de profissionalização. Para investidores, o valor estará concentrado na infraestrutura capaz de conectar criadores, plataformas e marcas em escala.
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