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quarta-feira, setembro 16, 2026

Por que cada vez mais adultos descobrem o TDAH

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Durante a infância, muitos adultos hoje diagnosticados com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) passaram despercebidos pelos radares médicos e escolares. Tiravam boas notas, não causavam problemas em sala de aula e, aos olhos de professores e familiares, “iam bem”. As dificuldades só surgiram mais tarde — geralmente quando a vida passou a exigir autonomia, organização e foco constantes.

Esse padrão tem se repetido com frequência crescente. Dados de diferentes países mostram que os diagnósticos de TDAH em adultos aumentaram de forma significativa na última década, reacendendo debates sobre saúde mental, critérios clínicos e o impacto do estilo de vida moderno.

O que mostram os números

Estudos epidemiológicos estimam que entre 2% e 3% dos adultos no mundo tenham TDAH. Em países como a Alemanha, registros de planos de saúde indicavam taxas bem menores, entre 0,2% e 0,4%. No entanto, um levantamento publicado pela revista científica Ärzteblatt International revelou uma virada expressiva: entre 2015 e 2024, a taxa de novos diagnósticos em adultos quase triplicou, saltando de 8,6 para 25,7 casos por 10 mil pessoas seguradas pelo sistema público.

A tendência não é isolada. Nos Estados Unidos, por exemplo, o número de adultos diagnosticados com TDAH mais que dobrou nas últimas duas décadas.

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Diagnosticar mais não significa ter mais

Para especialistas, o aumento não indica necessariamente que o transtorno esteja se tornando mais comum. “O TDAH na idade adulta tem sido diagnosticado com muito mais frequência nos últimos dez anos, principalmente porque muitos adultos não haviam sido identificados antes”, explica Swantje Matthies, psiquiatra do Hospital Universitário de Freiburg.

Durante muito tempo, o TDAH foi visto quase exclusivamente como um transtorno infantil. Hoje se sabe que ele tem forte base genética — cerca de 80% — e acompanha o indivíduo desde o nascimento, embora os sintomas mudem ao longo da vida.

Diferenças de gênero pesam no diagnóstico tardio

Outro fator decisivo para o diagnóstico tardio é a forma como o transtorno se manifesta em homens e mulheres. Meninos tendem a apresentar mais hiperatividade e impulsividade, comportamentos que chamam atenção na escola. Já meninas frequentemente manifestam desatenção, distração e comportamento introspectivo — sinais mais fáceis de confundir com timidez, ansiedade ou depressão.

Na vida adulta, essa diferença diminui. A hiperatividade visível costuma dar lugar a uma inquietação interna constante, enquanto os problemas de atenção e organização persistem. Como resultado, mulheres jovens aparecem com maior frequência entre os novos diagnósticos, equilibrando as estatísticas com o passar dos anos.

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Como se chega ao diagnóstico na vida adulta

Identificar TDAH em adultos é um processo complexo. Ele envolve entrevistas clínicas detalhadas, questionários padronizados e a reconstrução da história de vida do paciente. Um critério essencial é verificar se os sintomas já estavam presentes antes dos 12 anos e continuam causando prejuízos funcionais.

“Isso é difícil de avaliar retrospectivamente”, explica Matthies. “Nem todo mundo se lembra claramente de como era na infância.” Por isso, registros escolares, relatos familiares e documentos antigos podem ser decisivos. Além disso, é fundamental descartar outras condições, já que ansiedade, depressão e distúrbios do sono também afetam a concentração.

Por que agora?

Os pesquisadores apontam uma combinação de fatores para explicar a alta recente nos diagnósticos: maior conscientização social, mudanças nos sistemas de classificação médica, ampliação do acesso a serviços de saúde mental e o impacto prolongado da pandemia de covid-19, que levou mais pessoas a buscar ajuda psicológica.

As redes sociais também desempenham um papel ambíguo. Ao mesmo tempo em que ajudam a reduzir o estigma e ampliam a informação, muitas vezes simplificam excessivamente os sintomas. “Há muito conteúdo impreciso e exagerado”, alerta Matthies, defendendo cautela para evitar autodiagnósticos precipitados.

O que muda com o diagnóstico

Para muitos adultos, receber o diagnóstico representa alívio. Ele ajuda a ressignificar experiências passadas e a entender que dificuldades recorrentes não são fruto de preguiça ou falta de esforço. Terapia comportamental, medicação e estratégias personalizadas de organização costumam trazer ganhos concretos.

Ao mesmo tempo, especialistas lembram que o TDAH não é apenas limitação. Características como hiperfoco, criatividade, entusiasmo e capacidade de fazer conexões rápidas podem se tornar grandes ativos — desde que o ambiente ofereça suporte adequado.

Um desafio coletivo

O crescimento dos diagnósticos expõe uma questão maior: como tornar a sociedade mais preparada para lidar com diferentes formas de funcionamento mental. Ambientes menos estimulantes, maior flexibilidade de horários e modelos de trabalho adaptáveis beneficiam não apenas pessoas com TDAH, mas uma parcela ampla da população.

Como resume Matthies, o transtorno existe em um espectro. Para alguns, é uma fonte de sofrimento intenso; para outros, um traço que pode ser transformado em recurso. O desafio está em reconhecer essa diversidade — e criar condições para que ela não se transforme em obstáculo invisível ao longo da vida adulta.

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