Quase 15 anos depois do acidente nuclear de Fukushima, o Japão deu um passo decisivo para recolocar em operação a Usina Nuclear de Kashiwazaki-Kariwa, considerada a maior do mundo em capacidade instalada. A autorização veio nesta segunda-feira (22), após a assembleia da província de Niigata aprovar a retomada das atividades do complexo.
Localizada a cerca de 220 quilômetros ao norte de Tóquio, a usina foi uma das dezenas de instalações nucleares paralisadas em 2011, quando um terremoto seguido de tsunami levou ao colapso da Fukushima Daiichi, no episódio classificado como o mais grave desastre nuclear desde Chernobyl.
Desde então, o governo japonês vem promovendo uma reavaliação gradual de sua política energética. Dos 54 reatores existentes à época, apenas parte voltou a operar. Com a decisão mais recente, a Kashiwazaki-Kariwa se tornará a primeira usina administrada pela Tokyo Electric Power Company a ser reativada após o acidente de Fukushima.
O aval político ocorreu após um voto de confiança no governador de Niigata, Hideyo Hanazumi, que já havia manifestado apoio à reabertura nas últimas semanas. A partir disso, a empresa operadora fica autorizada a avançar nos trâmites finais para religar os reatores.
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A decisão, no entanto, não passou sem resistência. Horas antes da votação, cerca de 300 pessoas se reuniram em frente ao parlamento local em protesto contra a retomada das operações. Muitos manifestantes eram idosos e carregavam cartazes com mensagens contrárias à energia nuclear. Durante o ato, entoaram canções tradicionais e questionaram a capacidade da TEPCO de operar a usina com segurança.
De acordo com a emissora pública NHK, o plano inicial prevê a reativação do primeiro dos sete reatores em 20 de janeiro. A empresa afirma ter reforçado protocolos de segurança e medidas de prevenção para evitar novos acidentes. “Nosso compromisso é garantir a segurança dos moradores de Niigata”, declarou o porta-voz Masakatsu Takata.
Apesar disso, a desconfiança permanece entre a população local. Levantamento da prefeitura indica que 60% dos moradores não acreditam que todas as condições de segurança estejam plenamente atendidas, enquanto quase 70% demonstram preocupação com a gestão da usina pela TEPCO.
Entre os críticos está Ayako Oga, agricultora que se mudou para Niigata após deixar a região de Fukushima em 2011. “Conhecemos em primeira mão o risco de um acidente nuclear e não podemos ignorá-lo”, afirmou, ao mencionar os impactos psicológicos e sociais que ainda persistem entre as vítimas do desastre.
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Mesmo apoiando a retomada, o governador Hanazumi afirmou desejar um futuro com menor dependência desse tipo de energia. “Quero ver uma era em que não precisemos depender de fontes de energia que causam ansiedade”, declarou.
Do ponto de vista do governo central, a reativação é estratégica. Estimativas oficiais apontam que a usina pode elevar em até 2% o fornecimento de eletricidade para a região de Tóquio. A primeira-ministra Sanae Takaichi defende o retorno gradual da energia nuclear como forma de reforçar a segurança energética e reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados.
Em 2024, o Japão gastou cerca de 10,7 trilhões de ienes com importações de gás natural liquefeito e carvão. Apesar da queda populacional projetada, o consumo de energia tende a crescer com a expansão de data centers voltados à inteligência artificial.
Dentro desse cenário, o país estabeleceu a meta de elevar a participação da energia nuclear para 20% da matriz elétrica até 2040, o dobro do patamar atual. Especialistas avaliam que a aceitação pública da Kashiwazaki-Kariwa será determinante para o sucesso dessa estratégia.
Ainda assim, opositores alertam para os riscos. “Como vítima do acidente nuclear de Fukushima, desejo que ninguém, no Japão ou em qualquer outro lugar do mundo, sofra novamente as consequências de um desastre nuclear”, concluiu Oga.
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