Falar de política em grupos de WhatsApp deixou de ser hábito comum entre os brasileiros. Conversas que antes incluíam opiniões sobre governo, eleições e figuras públicas vêm sendo substituídas pelo silêncio ou por mensagens neutras, especialmente em grupos de família, amigos e trabalho.
A constatação faz parte do estudo Os Vetores da Comunicação Política em Aplicativos de Mensagens, divulgado nesta segunda-feira (15) pelo InternetLab e pela Rede Conhecimento Social. O levantamento analisou como os brasileiros se comportam politicamente em aplicativos de mensagens e identificou uma redução significativa desse tipo de conteúdo nos grupos cotidianos.
Embora o WhatsApp siga amplamente utilizado — com mais da metade dos usuários participando de grupos familiares e de amizade —, os espaços dedicados exclusivamente a debates políticos se tornaram ainda mais raros. Apenas 6% dos entrevistados afirmaram integrar grupos voltados a esse tema, percentual inferior ao registrado em 2020, quando chegava a 10%.
A queda também aparece na circulação de mensagens políticas nos grupos comuns. Entre 2021 e 2024, o número de pessoas que dizem ver esse tipo de conteúdo diminuiu de forma consistente. Nos grupos de família, a proporção recuou de 34% para 27%. Entre amigos, a redução foi ainda mais acentuada, passando de 38% para 24%. Já nos grupos de trabalho, o índice caiu de 16% para 11%.
Segundo os pesquisadores, o principal fator por trás desse comportamento é o medo de conflito. Mais da metade dos participantes (56%) afirmou evitar emitir opinião política por considerar o ambiente “muito agressivo”. Esse receio atravessa diferentes espectros ideológicos e aparece entre pessoas que se identificam como de esquerda, centro ou direita.
A percepção de hostilidade, de acordo com o estudo, está ligada a experiências acumuladas desde 2018, período apontado como um marco de endurecimento do tom das discussões políticas no país. Desde então, muitos usuários passaram a adotar estratégias de contenção para preservar relações pessoais.
Cerca de 52% dizem se policiar cada vez mais sobre o que escrevem nos grupos, enquanto metade evita deliberadamente falar de política em conversas familiares. O levantamento mostra ainda que 71% dos entrevistados alteraram seu comportamento no WhatsApp ao longo dos últimos anos para reduzir atritos, e 29% chegaram a sair de grupos por não se sentirem à vontade para se expressar.
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Apesar do cenário de cautela, uma parcela dos usuários continua se posicionando. Doze por cento afirmam compartilhar conteúdos políticos que consideram relevantes, mesmo sabendo que isso pode gerar desconforto. Outros 18% dizem expor suas opiniões mesmo quando reconhecem que elas podem soar ofensivas para parte do grupo.
Entre os que se sentem mais seguros para falar de política no aplicativo, surgem alternativas para suavizar o debate. O humor aparece como uma das principais estratégias, citado por 30% dos entrevistados, enquanto outros preferem conversas privadas ou limitam o tema a grupos com pessoas de pensamento semelhante.
A pesquisa ouviu 3.113 pessoas com 16 anos ou mais, de todas as regiões do país, entre novembro e dezembro de 2024. Segundo as autoras do estudo, o WhatsApp está profundamente integrado ao cotidiano dos brasileiros, mas passou a operar sob regras informais de convivência. Ao longo do tempo, os usuários desenvolveram uma espécie de “ética de grupo” para lidar com temas sensíveis, especialmente a política.
O levantamento contou com apoio financeiro do WhatsApp, mas as instituições responsáveis afirmam que a empresa não interferiu na metodologia nem nos resultados do estudo.
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