A morte do menino Benício Xavier de Freitas, de 6 anos, após receber uma dose incorreta de adrenalina intravenosa no Hospital Santa Júlia, em Manaus, desencadeou uma investigação que aponta falhas sucessivas em diferentes etapas do atendimento. O caso ocorreu em 23 de novembro — pouco antes de o garoto completar 7 anos, no Natal — e foi relatado pelos pais em entrevista ao Fantástico.
Eles afirmam ter vivido uma “sucessão de erros” desde a entrada no hospital até os procedimentos finais na UTI.
Sintomas leves, 14 horas de espera e uma prescrição equivocada
A família levou Benício ao hospital na noite de 22 de novembro com tosse seca, febre e suspeita de laringite. Segundo a mãe, Joice Carvalho, um mês antes o menino havia recebido tratamento no mesmo local, com adrenalina por inalação, procedimento usual para quadros desse tipo.
Na triagem, a situação não foi considerada grave. Durante a consulta, a médica Juliana Brasil Santos avisou que utilizaria adrenalina, mas não explicou a via de administração. A prescrição indicava adrenalina pura, não diluída, aplicada diretamente na veia, em três doses que somavam 9 mg — quantidade muito superior ao recomendado e restrita a casos extremos, como paradas cardiorrespiratórias.
A técnica de enfermagem Raíza Bentes, com sete meses de atuação na área, aplicou a medicação. Ela declarou ter estranhado o método, mas seguiu a ordem presencial e registrada em sistema. Segundo a mãe, o menino ficou pálido e disse sentir dor no coração logo após a aplicação.
A técnica relatou ter procurado a médica imediatamente:
“Informei que tinha administrado a medicação e que a criança tinha tido reação. Falei que foi adrenalina. E aí ela pegou e falou ‘tá bom’.”
Posteriormente, Juliana admitiu por mensagem: “Eu que errei na prescrição”, e repetiu o reconhecimento em relatório interno.
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Piora rápida e seis paradas cardíacas
Benício foi transferido para a área de emergência e, mais tarde, para a UTI. Passou pelo pai, fez uma refeição e parecia responder ao suporte. Horas depois, precisou ser intubado. O menino sofreu seis paradas cardíacas consecutivas e não resistiu.
“É uma dor muito grande que vou levar para a minha vida toda”, afirmou o pai, Bruno Freitas, que acompanhou de perto o atendimento.
Polícia fala em “erro sequencial” e vê indícios de homicídio
A investigação conduzida pelo delegado Marcelo Martins aponta múltiplas falhas envolvendo prescrição, checagem e supervisão:
- ausência de dupla checagem na prescrição;
- falha da enfermagem em contestar a dose e a via;
- falta de validação por profissional de farmácia;
- falhas no processo de intubação.
Para o delegado, a soma de erros foi determinante:
“Nota-se um erro estrutural, sequencial de protocolos, de cuidados. E aí você vê que o Benício não teve chance.”
“Com certeza, um homicídio”, completou Martins, referindo-se à conduta médica.
O presidente do Conselho Regional de Farmácia do Amazonas, Reginaldo Silva Costa, reforçou que a checagem farmacêutica teria evitado a superdosagem:
“Certamente, o profissional farmacêutico teria identificado a superdose e solicitado revisão.”
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Médica alega falha no sistema; hospital rebate
A defesa de Juliana afirma que houve falha no sistema de prescrição eletrônico, que teria alterado a via da adrenalina automaticamente. Documentos internos, porém, contradizem a versão: segundo o setor de tecnologia, o sistema não altera prescrições sem ação direta do médico.
A médica está solta por habeas corpus preventivo.
Já a técnica de enfermagem Raíza foi suspensa pelo Conselho Regional de Enfermagem e responde em liberdade. Sua defesa diz que só comentará após o fim das apurações e reforça que ela seguiu o que estava prescrito.
O diretor médico do hospital, Guilherme Macedo, afirmou que a instituição estuda mudanças para evitar novas tragédias:
“Toda a gestão está envolvida em elaborar planos de ação para que o hospital evite situações semelhantes e com desfecho trágico como foi esse.”
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