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quarta-feira, setembro 16, 2026

Família denuncia falhas em série após morte de Benício, 6, que recebeu adrenalina na veia por engano

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A morte do menino Benício Xavier de Freitas, de 6 anos, após receber uma dose incorreta de adrenalina intravenosa no Hospital Santa Júlia, em Manaus, desencadeou uma investigação que aponta falhas sucessivas em diferentes etapas do atendimento. O caso ocorreu em 23 de novembro — pouco antes de o garoto completar 7 anos, no Natal — e foi relatado pelos pais em entrevista ao Fantástico.

Eles afirmam ter vivido uma “sucessão de erros” desde a entrada no hospital até os procedimentos finais na UTI.

Sintomas leves, 14 horas de espera e uma prescrição equivocada

A família levou Benício ao hospital na noite de 22 de novembro com tosse seca, febre e suspeita de laringite. Segundo a mãe, Joice Carvalho, um mês antes o menino havia recebido tratamento no mesmo local, com adrenalina por inalação, procedimento usual para quadros desse tipo.

Na triagem, a situação não foi considerada grave. Durante a consulta, a médica Juliana Brasil Santos avisou que utilizaria adrenalina, mas não explicou a via de administração. A prescrição indicava adrenalina pura, não diluída, aplicada diretamente na veia, em três doses que somavam 9 mg — quantidade muito superior ao recomendado e restrita a casos extremos, como paradas cardiorrespiratórias.

A técnica de enfermagem Raíza Bentes, com sete meses de atuação na área, aplicou a medicação. Ela declarou ter estranhado o método, mas seguiu a ordem presencial e registrada em sistema. Segundo a mãe, o menino ficou pálido e disse sentir dor no coração logo após a aplicação.

A técnica relatou ter procurado a médica imediatamente:

“Informei que tinha administrado a medicação e que a criança tinha tido reação. Falei que foi adrenalina. E aí ela pegou e falou ‘tá bom’.”

Posteriormente, Juliana admitiu por mensagem: “Eu que errei na prescrição”, e repetiu o reconhecimento em relatório interno.

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Piora rápida e seis paradas cardíacas

Benício foi transferido para a área de emergência e, mais tarde, para a UTI. Passou pelo pai, fez uma refeição e parecia responder ao suporte. Horas depois, precisou ser intubado. O menino sofreu seis paradas cardíacas consecutivas e não resistiu.

“É uma dor muito grande que vou levar para a minha vida toda”, afirmou o pai, Bruno Freitas, que acompanhou de perto o atendimento.

Polícia fala em “erro sequencial” e vê indícios de homicídio

A investigação conduzida pelo delegado Marcelo Martins aponta múltiplas falhas envolvendo prescrição, checagem e supervisão:

  • ausência de dupla checagem na prescrição;

  • falha da enfermagem em contestar a dose e a via;

  • falta de validação por profissional de farmácia;

  • falhas no processo de intubação.

Para o delegado, a soma de erros foi determinante:

“Nota-se um erro estrutural, sequencial de protocolos, de cuidados. E aí você vê que o Benício não teve chance.”
“Com certeza, um homicídio”, completou Martins, referindo-se à conduta médica.

O presidente do Conselho Regional de Farmácia do Amazonas, Reginaldo Silva Costa, reforçou que a checagem farmacêutica teria evitado a superdosagem:

“Certamente, o profissional farmacêutico teria identificado a superdose e solicitado revisão.”

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Médica alega falha no sistema; hospital rebate

A defesa de Juliana afirma que houve falha no sistema de prescrição eletrônico, que teria alterado a via da adrenalina automaticamente. Documentos internos, porém, contradizem a versão: segundo o setor de tecnologia, o sistema não altera prescrições sem ação direta do médico.

A médica está solta por habeas corpus preventivo.

Já a técnica de enfermagem Raíza foi suspensa pelo Conselho Regional de Enfermagem e responde em liberdade. Sua defesa diz que só comentará após o fim das apurações e reforça que ela seguiu o que estava prescrito.

O diretor médico do hospital, Guilherme Macedo, afirmou que a instituição estuda mudanças para evitar novas tragédias:

“Toda a gestão está envolvida em elaborar planos de ação para que o hospital evite situações semelhantes e com desfecho trágico como foi esse.”

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