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quarta-feira, setembro 16, 2026

Como criadores mudam a linguagem para escapar dos algoritmos nas redes sociais

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A relação entre criadores de conteúdo e os algoritmos das grandes plataformas digitais está moldando uma nova maneira de se comunicar. Com a popularização da inteligência artificial e o aumento da moderação automatizada, muitos usuários passaram a evitar termos que acreditam reduzir a visibilidade de seus posts — comportamento que especialistas chamam de Algospeak.

Segundo reportagem da BBC, essa forma de comunicação surge quando criadores adaptam trechos da fala ou substituem palavras por códigos para impedir que sistemas de recomendação classifiquem seus vídeos como inadequados ou diminuam seu alcance. TikTok, Meta e YouTube negam categoricamente que existam listas de palavras proibidas, mas criadores relatam comportamentos que sugerem o contrário.

A lógica por trás do Algospeak

O Algospeak funciona como um “vocabulário paralelo”: usuários trocam expressões sensíveis por versões modificadas, escrevem termos quebrados ou adotam apelidos para driblar o algoritmo.

Para muitos influenciadores, a prática é parte da rotina. O criador Alex Pearlman, dono de milhões de seguidores, descreveu à BBC uma experiência comum:

“Para falar apenas do TikTok, eu raramente pronuncio a palavra ‘YouTube’. Se disser algo como ‘visita meu canal no YouTube’, o vídeo será um fracasso.”

A estratégia se repete em diferentes temas. Jeffrey Epstein, por exemplo, costuma ser chamado de “Homem da Ilha” por criadores que não querem arriscar ter o conteúdo suprimido.

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Moderação opaca e o papel dos algoritmos

Embora as plataformas insistam que só removem conteúdo que viola suas regras explícitas, investigações da BBC e da Human Rights Watch mostram que a moderação algorítmica não é neutra. Entre os achados:

  • O TikTok já orientou moderadores a reduzir a visibilidade de usuários considerados “feios”, pobres, com deficiência ou LGBTQIAPN+.

  • Transmissões ao vivo com críticas a governos chegaram a ser bloqueadas.

  • “Botões secretos” foram usados para impulsionar artificialmente conteúdos estratégicos, possivelmente por razões comerciais.

No YouTube, criadores LGBTQIAPN+ acusaram a plataforma de desmonetizar vídeos quando certos temas eram mencionados — prática negada pela empresa, apesar de persistentes relatos de engajamento reduzido.

O impacto sobre quem cria conteúdo

O resultado dessa opacidade é um cenário em que criadores passam a moldar seu discurso com base em percepções, medos e experiências compartilhadas — um mecanismo que o linguista Adam Aleksic chama de “imaginário algorítmico”.

Em outras palavras, mesmo quando não há proibição formal, a crença no poder punitivo do algoritmo condiciona comportamentos.

A criadora Ariana Jasmine Afshar resume o sentimento predominante:

“Nenhum de nós sabe o que funciona ou não. Estamos apenas jogando tudo contra a parede para ver como fica.”

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Códigos que viram movimentos

Esse tipo de adaptação nem sempre se restringe a conversas individuais. Durante protestos contra o ICE nos Estados Unidos, usuários de Los Angeles passaram a usar a expressão “festival de música” como código para discutir manifestações sem acionar restrições dos algoritmos. O termo viralizou e se tornou símbolo da disputa entre comunidade e plataformas.

Entre liberdade, segurança e lucro

As redes sociais argumentam que seus sistemas equilibram segurança e liberdade de expressão, mas especialistas reforçam que as escolhas automatizadas sempre priorizam métricas de engajamento e interesses comerciais.

O fenômeno do Algospeak expõe justamente esse ponto: para alcançar o público, criadores se veem obrigados a navegar por regras invisíveis — e, muitas vezes, imprevisíveis — determinadas por plataformas que possuem o controle total da circulação de conteúdo digital.

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