15 C
São Paulo
quarta-feira, setembro 16, 2026

Guaxinins urbanos exibem focinhos mais curtos e levantam hipótese de início de domesticação

Leia mais

Guaxinins habituados à vida nas cidades podem estar passando por mudanças que lembram o início de um processo de domesticação. A hipótese surgiu quando a bióloga Raffaela Lesch, da Universidade de Arkansas em Little Rock, observou um animal saindo de uma lixeira no campus e se perguntou se a convivência constante com humanos estaria alterando sua anatomia.

Intrigada, Lesch reuniu uma equipe de estudantes para investigar. A inspiração veio do paralelo com os primeiros lobos que se aproximaram de acampamentos humanos em busca de restos de comida — um comportamento considerado o ponto de partida da domesticação dos cães. “Tudo o que eles precisam fazer é suportar nossa presença e evitar agressividade. Assim, têm acesso a um banquete constante”, resume a pesquisadora.

++ Esta cama detecta terremotos e se transforma em uma cápsula de sobrevivência

A equipe analisou mais de 19 mil fotos enviadas ao iNaturalist, plataforma colaborativa de registro da fauna. Apenas 249 imagens mostravam guaxinins em perfil perfeito, permitindo medições precisas do focinho e do crânio. A comparação revelou um padrão: animais urbanos tinham focinhos cerca de 3,6% mais curtos do que os de áreas rurais.

O achado remete à chamada “síndrome de domesticação”, conceito descrito por Darwin e aprofundado por estudos atuais. Animais que passam por seleção de indivíduos mais tolerantes à presença humana tendem a desenvolver características como focinhos encurtados, dentes menores e manchas claras — mudanças ligadas ao modo como as células da crista neural se formam.

Apesar disso, nem todos os especialistas aceitam a hipótese como prova inicial de domesticação. A zooarqueóloga Kathryn Grossman, da Universidade Estadual da Carolina do Norte, adverte que o encurtamento do focinho pode ser uma adaptação não relacionada a esse processo. Ela destaca ainda que espécies domesticadas costumam apresentar padrões sociais específicos, o que não se encaixa completamente no comportamento dos guaxinins.

++ Guia mostra por que você não deve entrar em uma água cuja profundidade ainda não conhece

Lesch, no entanto, lembra que a adaptabilidade animal surpreende. Cães e gatos têm modelos sociais muito distintos, mas ambos foram domesticados ao longo da história. Os guaxinins, embora não formem grupos estruturados como lobos, mostram flexibilidade social e grande capacidade de ajustar comportamentos.

Os próximos passos da pesquisa incluem comparar crânios preservados ao longo de décadas e investigar diferenças comportamentais entre animais urbanos e rurais. Embora seja impossível prever se o processo avançará, a cientista acredita que estamos diante de uma oportunidade única de observar uma possível transformação em tempo real.

“Mesmo que não vejamos como isso vai terminar, podemos registrar como tudo começou”, afirma Lesch.

Não deixe de nos seguir no Instagram para mais notícias da Pardal Tech

- Advertisement -spot_img
- Advertisement -spot_img

Últimas notícias