O lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, marcou o início de uma transformação profunda em Wall Street. Três anos depois, a inteligência artificial não é apenas uma tendência tecnológica: tornou-se o eixo central do atual ciclo de alta das bolsas americanas e uma das forças mais determinantes na redistribuição de vencedores e perdedores no mercado global.
A expectativa de que a IA alteraria cadeias produtivas inteiras devolveu vigor às gigantes de tecnologia, concentrou ainda mais o índice S&P 500 e pressionou setores considerados facilmente substituíveis pelas novas ferramentas digitais.
“Todo mercado de alta tem um tema dominante — e, hoje, este tema é tecnologia e IA. Isso começou com força logo após o lançamento do ChatGPT”, afirma Keith Lerner, diretor de investimentos da Truist Advisory Services. Para ele, ainda é cedo para apostar no fim dessa liderança.
Big Tech volta ao topo — e puxa todo o mercado
Depois de um 2022 marcado por quedas expressivas devido ao aperto monetário e ao recuo nos lucros, empresas como Microsoft, Apple, Alphabet, Amazon, Meta e Nvidia retomaram o protagonismo impulsionadas pelo otimismo em torno da inteligência artificial.
Segundo dados compilados pela Bloomberg, essas sete companhias respondem por quase metade da valorização do S&P 500 desde o surgimento do ChatGPT — período em que o índice avançou 64%.
Para o analista Michael Bailey, da Fulton Breakefield Broenniman, o impacto foi ampliado pela baixa expectativa inicial. “O ciclo de IA teria impulsionado essas ações em qualquer circunstância. Mas, como começou num momento de pessimismo, o efeito pareceu ainda mais impressionante”, diz.
++ Mãos robóticas já fazem coisas que as nossas não conseguem
Nvidia, o símbolo da nova era de lucros
Nenhuma empresa surfou a onda da IA com tanta intensidade quanto a Nvidia. A demanda explosiva por chips de alto desempenho — hoje o coração das soluções de IA generativa — fez as ações saltarem 979% em três anos, um dos melhores desempenhos do S&P 500.
As projeções também seguiram esse ritmo: analistas estimam que a receita anual da companhia supere US$ 200 bilhões neste ano, contra US$ 27 bilhões no fim de 2022. O lucro líquido projetado para os próximos 12 meses supera, sozinho, a soma dos resultados de um terço das empresas do índice.
O domínio da Nvidia, porém, tem atraído competidores. Um exemplo recente é a movimentação da Meta, que, segundo a imprensa americana, discute um acordo multibilionário para adquirir chips de IA do Google.
Nova corrida energética
A explosão da computação em IA também transformou um setor aparentemente distante: o de energia. O consumo elétrico dos data centers cresceu tanto que empresas como Vistra, NRG Energy e Constellation Energy acumulam valorizações superiores a 250% em três anos — sendo a Vistra o quarto maior salto do S&P 500.
“A demanda é tão grande e tão constante que o mercado ainda não percebeu totalmente o impacto dessa transformação nos negócios de energia”, avalia Matt Sallee, da Tortoise Capital Advisors.
O avanço reacendeu até projetos nucleares, com startups como a Nano Nuclear Energy e a Oklo ganhando relevância e a Constellation recebendo US$ 1 bilhão do governo para reativar a usina Three Mile, fechada em 2019.
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Os “perdedores” da revolução
Enquanto Big Techs e empresas ligadas à infraestrutura se valorizam, setores ameaçados pela automação vivem o movimento oposto. Fabricantes de software tradicional, companhias de recrutamento e agências de publicidade estão entre as mais afetadas.
Um índice criado pelo UBS com empresas consideradas vulneráveis caiu mais de 30% desde o lançamento do ChatGPT — no mesmo período em que o Nasdaq 100 dobrou.
Casos emblemáticos incluem:
- LivePerson e Chegg, com queda de 97%
- Empresas de recrutamento como ManpowerGroup e Robert Half, com perdas superiores a 65%
“Os ciclos tecnológicos estão ficando tão rápidos que muitas empresas simplesmente não conseguem acompanhar”, avalia Bailey.
Mercado cada vez mais concentrado
A ascensão das gigantes tecnológicas aumentou a concentração do S&P 500 a níveis inéditos. Hoje, as sete maiores empresas representam 35% do índice, ante cerca de 20% no fim de 2022.
O grau de dependência preocupa analistas. “Essa concentração é sem precedentes e cria riscos significativos caso esse grupo de ações enfrente turbulências”, alerta Gene Goldman, diretor de investimentos do Cetera Financial Group.
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