O recente registro de um caso de peste bubônica nos Estados Unidos reacendeu um alerta global: enfermidades associadas à Idade Média continuam circulando e fazendo vítimas. Embora hoje sejam tratáveis e muito mais raras, doenças como peste, hanseníase e cólera persistem em regiões vulneráveis, impulsionadas pela desigualdade social e pela fragilidade dos sistemas de saúde.
“Essas infecções tendem a aparecer onde há baixa condição socioeconômica e falta de ferramentas eficazes de controle”, explica a infectologista Christiane Reis Kobal, do Hospital Israelita Albert Einstein. A combinação de pobreza, saneamento insuficiente e ausência de vacinação adequada cria o cenário perfeito para que agentes infecciosos continuem se propagando.
Por que essas doenças não desapareceram?
A erradicação de enfermidades sempre foi exceção na história da saúde pública. A varíola continua sendo o único exemplo bem-sucedido. “Os microrganismos evoluem para sobreviver. Mesmo com barreiras, eles encontram formas de persistir nos ecossistemas”, explica o epidemiologista Expedito José de Albuquerque Luna, da USP.
Quando a vigilância epidemiológica falha e o saneamento básico é precário, os surtos reaparecem — sobretudo em áreas pobres, zonas de guerra ou locais impactados por desastres naturais.
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Peste bubônica: ainda presente em focos naturais
Apesar de quase sempre associada ao período medieval, a peste bubônica continua existindo. Entre 2019 e 2022, seis países registraram casos, somando 1.722 infectados e 175 mortes, segundo a OMS. A República Democrática do Congo segue como o maior foco mundial.
No Brasil, não há casos desde 2005, mas áreas como a Região Serrana do Rio e o Semiárido Nordestino seguem classificadas como potenciais focos naturais. Parte da dificuldade está no diagnóstico: como a doença é rara, muitos profissionais não reconhecem seus sinais com facilidade.
Hanseníase: o Brasil ainda é um dos países mais afetados
Com origem milenar e registro histórico desde a China Antiga, a hanseníase ainda é endêmica no Brasil. Em 2024, o país notificou 22.129 novos casos, o segundo maior número do mundo — atrás apenas da Índia.
O diagnóstico é demorado e muitas vezes tardio, o que favorece sequelas graves. Manchas na pele, dormência e perda de força muscular estão entre os sinais. Embora o tratamento seja eficaz e oferecido pelo SUS, ele é longo e exige acompanhamento contínuo.
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Cólera: sete pandemias e contágio facilitado pela falta de saneamento
Causada pela bactéria Vibrio cholerae, a cólera continua provocando epidemias globais. Entre janeiro e agosto de 2025, foram 462.890 casos e 5.869 mortes em 32 países. A transmissão ocorre principalmente por água e alimentos contaminados, o que explica sua prevalência em regiões sem infraestrutura básica.
O Brasil não registra casos locais desde 2006, mas eventos importados ainda ocorrem. Como os sintomas podem se confundir com outros quadros gastrointestinais, o diagnóstico nem sempre é rápido — o que aumenta o risco de desidratação severa e choque hipovolêmico.
Controle depende de acesso, diagnóstico e investimento
A manutenção dessas doenças é um reflexo direto da desigualdade: onde falta água potável, saneamento e vigilância, patógenos encontram espaço para circular.
Segundo especialistas, o controle passa por três pilares:
- expansão do saneamento básico
- reforço da vigilância e testagem
- acesso a antimicrobianos e vacinação
“Com técnicas modernas de prevenção e tratamento, podemos controlar melhor essas enfermidades — mesmo que não seja possível erradicá-las”, afirma Kobal.
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