O caso da consumidora que relatou ter sofrido queimaduras na córnea após o uso de um cosmético da marca WePink, da influenciadora Virginia Fonseca, acendeu um alerta entre profissionais da saúde. Médicos especialistas em oftalmologia e imunologia reforçam que produtos de beleza não desenvolvidos para contato direto com os olhos podem provocar reações graves, incluindo inflamações, dor intensa e até comprometimento temporário da visão.
O produto em questão, o Wedrop, é registrado na Anvisa como cosmético para uso tópico na região dos cílios e sobrancelhas. No entanto, isso não significa que tenha sido testado ou aprovado para contato com a superfície ocular — uma diferença técnica que pode resultar em sérias consequências.
“O fato de o produto ter registro não significa que seja seguro para os olhos. Cosméticos não passam pelos mesmos testes exigidos para medicamentos oftalmológicos, como colírios. Isso torna o uso inadequado potencialmente perigoso”, afirma o oftalmologista Dr. Marcelo Taveira, referência em cirurgia refrativa.
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Lesões e risco de ceratite química
Segundo o especialista, ao entrar em contato direto com a córnea, um cosmético pode causar desde irritações leves até uma ceratite química — inflamação ocular dolorosa que pode imitar uma queimadura superficial. “Mesmo sem componentes tóxicos, reações alérgicas ou de hipersensibilidade são capazes de desencadear dor, ardência, vermelhidão e visão turva, especialmente em pessoas com maior sensibilidade”, explica Taveira.
Entre os sinais de alerta estão lacrimejamento excessivo, sensação de areia nos olhos, dificuldade para mantê-los abertos e embaçamento visual. A recomendação nesses casos é suspender imediatamente o uso do produto e lavar os olhos com soro fisiológico ou água corrente. Se os sintomas persistirem, é fundamental procurar atendimento médico especializado.
Ingredientes que exigem atenção
De acordo com Taveira, algumas substâncias comuns em cosméticos estão entre os principais agentes irritantes para os olhos. Entre elas estão o Phenoxyethanol, Imidazolidinyl Urea (liberador de formaldeído), Sodium Laureth Sulfate e Benzyl Alcohol. Todos esses compostos são conhecidos pelo potencial de provocar reações adversas em mucosas sensíveis.
“Mesmo que não tenham sido desenvolvidos para isso, é comum as pessoas aplicarem esses produtos muito próximos à área ocular, o que aumenta os riscos”, alerta o médico.
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Casos podem ser reversíveis, mas exigem atenção
A boa notícia, segundo o especialista, é que a maioria das lesões leves a moderadas na córnea tende a se recuperar com tratamento adequado. “O epitélio corneano se regenera rapidamente, mas se o tratamento for negligenciado, pode haver sequelas permanentes, como cicatrizes e opacidades que comprometem a visão”, afirma.
Para a alergista e imunologista Dra. Brianna Nicoletti, o caso evidencia a necessidade de cautela no uso de produtos cosméticos próximos aos olhos. “A região ocular é extremamente sensível. Mesmo um produto seguro para a pele pode ser agressivo para os olhos. Por isso, é fundamental seguir as indicações do fabricante e, sempre que possível, buscar orientação médica”, orienta.
Relembre o caso
A moradora de Nova Iguaçu (RJ), Lidiane Herculano, afirmou ter perdido temporariamente a visão após aplicar o produto Wedrop. Em relato divulgado nas redes sociais, ela contou que sentiu ardência logo após o uso, mas só percebeu a gravidade do problema ao acordar no dia seguinte com a visão embaçada e dor intensa.
Mesmo após lavar os olhos, os sintomas pioraram. Segundo Lidiane, o diagnóstico médico foi de queimadura na córnea. Ela passou a usar colírios prescritos, mas continuou sentindo dores nos dias seguintes. A família informou que pretende acionar judicialmente a marca responsável.
Em nota, a equipe da WePink afirmou que entrou em contato com a consumidora para solicitar o envio do produto com o objetivo de realizar uma perícia técnica. Segundo a empresa, foram oferecidas opções de postagem reversa e coleta domiciliar, mas, inicialmente, a cliente teria se recusado a entregar o item. A marca afirma ainda que continua aguardando o envio do frasco para análise.
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