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quarta-feira, setembro 16, 2026

IA ajuda a revelar quem escreveu partes da Bíblia e abre caminho para novas descobertas

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Uma combinação inédita de estatística, tecnologia e arqueologia está ajudando a responder uma das maiores perguntas da história: quem realmente escreveu os textos da Bíblia? Pesquisadores de diferentes áreas aplicaram inteligência artificial (IA) para rastrear padrões linguísticos e apontar quais grupos de autores foram responsáveis por diversos capítulos do Antigo Testamento.

O estudo, publicado recentemente na revista Plos One, utilizou um algoritmo capaz de identificar, com precisão, diferenças sutis de vocabulário e estilo entre textos que, por séculos, foram atribuídos a um mesmo autor coletivo.

Segundo Thomas Römer, biblista e coautor da pesquisa, a Bíblia não foi escrita de forma linear ou por um único autor, como muitos imaginam. “Os textos foram constantemente reescritos, ampliados e editados por diferentes grupos ao longo de quase três mil anos”, explicou.

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Como a IA identificou os diferentes autores

A pesquisa analisou os primeiros nove livros da Bíblia Hebraica. Por meio de uma varredura detalhada de 50 capítulos, os cientistas cruzaram dados sobre a frequência de palavras, o uso de expressões específicas e as construções linguísticas de cada trecho. O resultado permitiu dividir os textos entre três principais correntes autorais já conhecidas pelos estudiosos: os textos do Deuteronômio, a História Deuteronomista (que vai de Josué a Reis) e os Escritos Sacerdotais (como partes de Gênesis, Êxodo e Levítico).

Termos simples como “não”, “rei” e até os nomes usados para Deus (como Elohim) foram essenciais na classificação. Um exemplo citado no estudo é o nome “lo”, que significa “não” em hebraico e aparece com mais frequência nos textos de uma tradição do que em outra.

Em 84% dos casos analisados, o sistema de IA chegou às mesmas conclusões que a crítica bíblica tradicional, o que reforça a validade da abordagem.

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Mudança de paradigma para análise de documentos antigos

A base desse projeto remonta a 2010, quando os pesquisadores começaram a estudar inscrições em cerâmicas antigas. Agora, com a aplicação mais ampla em textos religiosos, o método também abriu novas perguntas: por exemplo, a IA revelou que dois relatos sobre a Arca da Aliança, nos livros de Samuel, que antes eram considerados partes de uma mesma narrativa, na verdade têm origens distintas.

Além disso, o sistema detectou que alguns textos, como os capítulos sobre Abraão em Gênesis e o Livro de Ester, não se encaixam em nenhuma das três escolas autorais já mapeadas. Para os pesquisadores, isso indica que esses trechos foram escritos por redatores externos aos grupos tradicionais.

Limitações e próximos passos

O trabalho teve que superar um dos principais desafios quando se estuda a Bíblia: a constante reedição dos textos ao longo dos séculos. Por isso, os cientistas optaram por usar um método estatístico direto, ao invés de sistemas convencionais de machine learning, que exigem grandes volumes de dados originais.

Agora, a equipe planeja expandir a análise para outros livros da Bíblia e documentos históricos como os Manuscritos do Mar Morto. A técnica também poderá ser usada para verificar a autenticidade de textos históricos de diferentes culturas e períodos.

“Nosso objetivo é trazer mais objetividade à análise de documentos antigos, algo que pode transformar não só os estudos bíblicos, mas também a pesquisa em História e Arqueologia”, resumiu Israel Finkelstein, um dos líderes do projeto.

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