O universo das bonecas reborn — réplicas hiper-realistas de bebês — ultrapassou os limites das feiras de artesanato e dos encontros de colecionadores. Agora, essas figuras de vinil estão aparecendo, com frequência crescente, como protagonistas de processos judiciais que vão de disputas familiares a questionamentos sobre multas de trânsito.
Com um público cada vez mais engajado — são mais de 1,3 milhão de seguidores em páginas dedicadas ao tema no Brasil — os casos envolvendo as chamadas “mães reborn” e até as fabricantes, conhecidas como “cegonhas”, começam a chamar atenção do Judiciário.
Boneca que virou infração de trânsito
Um dos episódios mais inusitados ocorreu em Itanhaém, litoral paulista, quando uma motorista foi autuada por transportar, supostamente, uma criança no banco dianteiro do carro — uma infração gravíssima, com direito a sete pontos na carteira. O detalhe: tratava-se de uma boneca reborn, levada no colo pela filha de 12 anos.
Na tentativa de anular a multa, a mulher recorreu à Justiça em 2023, processando o município e o Detran. Ela apresentou fotos da filha com a boneca, além do comprovante de compra de uma réplica de 57 centímetros, adquirida por US$ 74 em 2018. Alegou que os policiais foram induzidos ao erro por não abordarem o veículo antes de lavrar a infração.
Mesmo com as provas anexadas, o juiz manteve a penalidade. Segundo a sentença, a fotografia não era suficiente para invalidar o auto de infração emitido com base no relato dos agentes.
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Disputas emocionais e brigas de guarda
Os tribunais também começam a lidar com um novo tipo de impasse: a disputa emocional por bonecas reborn após o fim de relacionamentos. A advogada Suzana Ferreira relatou em suas redes sociais o caso de uma cliente que tenta formalizar, judicialmente, a divisão de custos e até a “guarda” da boneca adquirida durante o namoro.
“Para ela, o vínculo com aquela peça vai além de um brinquedo. Há um apego emocional, e o ex-companheiro insiste em manter contato com a boneca”, explicou a advogada. O caso ainda está em fase extrajudicial, mas não é isolado.
Em São Carlos (SP), por exemplo, um pai acionou a Justiça para reaver um bebê reborn e outros pertences da filha, que ficaram com a ex-esposa após o divórcio. Na ação, o homem anexou mensagens de áudio em que a mãe ameaçava doar os objetos por vingança. O valor estimado da boneca, na época, era de R$ 1 mil. O juiz determinou a devolução dos bens, mas o processo foi encerrado com um acordo entre as partes.
Já em Sergipe, uma disputa por danos morais teve como pano de fundo uma festa de aniversário na qual a criança ganhou uma boneca reborn. O pai, que organizou o evento, não permitiu que a filha levasse o presente para casa, o que teria gerado episódios de choro e ansiedade, relatados pela mãe nas redes sociais — motivo que desencadeou o processo. O caso foi remetido para a Justiça de Roraima, onde a criança reside.
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Brigas comerciais entre fabricantes
Nem mesmo as próprias “cegonhas” escapam das batalhas judiciais. Disputas entre fabricantes têm gerado ações por difamação e calúnia, com desdobramentos que ganham força nos grupos online dedicados ao tema.
Em um caso analisado no Rio Grande do Sul, uma empresária do setor alegou ter sido vítima de ofensas após uma divergência comercial. Ela virou alvo de acusações de golpe em comunidades virtuais de mães reborn. A ação, no entanto, foi julgada improcedente.
Além disso, há processos ligados ao direito do consumidor, que envolvem reclamações por atraso nas entregas, defeitos nas bonecas ou não recebimento dos produtos. Em casos mais extremos, já houve até registros de furto de reborns.
Tema chega até a formação de policiais
A repercussão é tanta que o tema já chegou aos bancos das academias de polícia. Em São Paulo, uma das questões da prova oral para ingresso na Polícia Civil abordava a aplicação do princípio da dignidade da pessoa humana a um boneco reborn.
Enquanto as vendas dessas réplicas — que podem custar entre R$ 850 e R$ 6 mil, com até 15 dias de produção artesanal — continuam em alta, o Judiciário parece ter ganho um novo e insuspeito personagem: o bebê reborn.



