Embora não seja uma doença de notificação obrigatória no Brasil, a pneumonia voltou a acender um alerta no sistema público de saúde. Dados do DataSUS indicam um crescimento de 5% nas internações por pneumonia em 2024, totalizando 701 mil hospitalizações — contra 666,9 mil em 2023. Mais preocupante, porém, foi o aumento de 12% nas mortes, com 73.813 óbitos no último ano, frente a 65.846 no anterior.
Os números ganham contornos ainda mais graves diante do avanço de casos atípicos, também chamados de pneumonias silenciosas, por apresentarem sintomas mais discretos ou incomuns, como a ausência de febre. Em São Paulo, por exemplo, o número de internações subiu 6,7% e os óbitos aumentaram quase 13% no mesmo período — saltando de 23.084 para 25.983, segundo a Secretaria Estadual de Saúde.
Esses quadros, menos óbvios, dificultam o diagnóstico precoce e aumentam o risco de complicações graves. “Estimamos que entre 30% e 40% das pneumonias tenham origem atípica”, aponta o pneumologista Ximenes. “Isso equivale a até quatro casos para cada mil habitantes, sendo muitos deles assintomáticos ou com sintomas brandos, como mal-estar, tosse seca e dor muscular.”
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Por que os casos estão aumentando?
Segundo o pneumopediatra Luiz Vicente Ribeiro, do Hospital Israelita Albert Einstein, o atual surto está ligado à circulação de duas bactérias específicas: Mycoplasma sp. e Chlamydophila sp. Antes da pandemia, esses microrganismos apresentavam sazonalidade definida — com picos a cada dois ou três anos. No entanto, esse padrão mudou.
“O isolamento durante a pandemia reduziu drasticamente a exposição das crianças a vírus e bactérias, impedindo que desenvolvessem imunidade natural”, explica Ribeiro. Com o retorno às escolas e à rotina social, a exposição aumentou repentinamente, tornando a população — especialmente os mais jovens — mais vulnerável a infecções respiratórias.
O especialista avalia que o fenômeno pode se estender pelos próximos invernos. “Até que haja uma nova adaptação imunológica, surtos de doenças respiratórias, como a pneumonia silenciosa, tendem a se repetir nos meses mais frios”, alerta.
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Diagnóstico e tratamento
Embora o diagnóstico da pneumonia atípica siga o mesmo protocolo da forma clássica — com exames clínicos, ausculta pulmonar e radiografia de tórax —, nem sempre ele é conclusivo. Exames laboratoriais mais detalhados, como o de proteína C-reativa (PCR), são capazes de identificar os agentes infecciosos, mas, por não alterarem a conduta médica, muitas vezes são deixados de lado.
O tratamento é guiado pela avaliação clínica. Casos típicos geralmente respondem bem a antibióticos como penicilina, mas essas drogas não são eficazes contra o Mycoplasma, agente comum das formas silenciosas. Por isso, o uso de antibióticos de espectro mais específico pode ser necessário.
A demora no diagnóstico ou no início do tratamento pode causar complicações como insuficiência respiratória, sepse, necessidade de intubação, AVC e até encefalite.
Como se prevenir?
A transmissão da pneumonia silenciosa ocorre por contato com secreções contaminadas, o que torna as medidas de prevenção semelhantes às adotadas contra a Covid-19:
- Uso de máscaras em locais fechados e aglomerados (especialmente hospitais);
- Higienização frequente das mãos com água, sabão ou álcool em gel;
- Evitar contato com pessoas gripadas ou com sintomas respiratórios.
Apesar de não proteger contra formas atípicas, a vacina pneumocócica, disponível gratuitamente pelo SUS, continua sendo essencial para crianças, idosos e grupos de risco.
“Sabemos que a pneumonia pode ter formas variadas e, mesmo com as mudanças sazonais atuais, não é uma doença desconhecida. A orientação é procurar atendimento ao notar qualquer sintoma respiratório persistente”, reforça Ximenes. “O importante é evitar o pânico e manter a vigilância.”
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