
Estimativa baseada em dados eleitorais aponta que a vantagem de Lula sobre Flávio foi maior em seções com mais mulheres. Entre eleitoras de 18 a 20 anos, a diferença em relação aos homens chegou a 25 pontos percentuais. (Foto: Instagram)
Além das diferenças regionais na votação do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do candidato derrotado Flávio Bolsonaro (PL), os resultados de 2026 apontam uma divisão entre homens e mulheres. Análise de Marco Antonio Faganello, professor do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (Cepesp FGV), indica que, quanto maior a proporção de mulheres em uma seção eleitoral, maior foi a vantagem de Lula sobre Flávio.
Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não mostram como cada pessoa votou, mas trazem informações sobre gênero, idade e escolaridade dos eleitores inscritos em cada seção. Com base nesses registros, Faganello comparou urnas do mesmo local de votação. A estimativa é que a diferença entre homens e mulheres no apoio a Lula tenha sido de 9,8 pontos percentuais no segundo turno de 2026, acima dos 6,4 pontos registrados em 2022, quando ele disputou com Jair Bolsonaro (PL).
A análise não permite afirmar a votação exata de cada candidato entre homens e mulheres. Como exemplo, se Lula tivesse recebido 45% dos votos masculinos, a estimativa indicaria cerca de 55% entre as mulheres. O país tem 158 milhões de eleitores aptos, dos quais 83,8 milhões (52,8%) são mulheres. No segundo turno, Lula recebeu 4,4 milhões de votos a mais que Flávio. Faganello ressalva que o método estatístico, chamado regressão ecológica, oferece uma estimativa, não uma certeza individual, mas aponta um padrão observado em todas as regiões.
As pesquisas antes da votação também mostravam diferenças por gênero. Em 24 de outubro, o Datafolha registrava Lula com 51% entre as mulheres e Flávio com 44%; entre os homens, Flávio tinha 53% e Lula, 42%. A Quaest indicava 49% a 41% para Lula entre as mulheres e 51% a 41% para Flávio entre os homens. Já o instituto Vox, em 18 de outubro, apontava vantagem de quase cinco pontos para Lula entre as mulheres e de quatro pontos para Flávio entre os homens.
A diferença foi mais acentuada entre os eleitores jovens. Na faixa de 18 a 20 anos, a preferência por Lula entre as mulheres superou em 25 pontos percentuais a dos homens, segundo a estimativa. A distância diminui com o avanço da idade e fica praticamente nula a partir dos 70 anos. Para a professora Débora Thomé, pesquisadora da FGV sobre voto e representação feminina, o resultado surpreende. Em 2022, a diferença era associada, entre outros fatores, à pandemia de covid-19 e à gestão da saúde no governo Jair Bolsonaro.
Thomé avalia que a defesa de programas sociais, como o Bolsa Família, pode ter aproximado eleitoras de Lula. Das 19,3 milhões de famílias atendidas pelo programa, 16,1 milhões (83,4%) são chefiadas por mulheres, segundo o Ministério de Desenvolvimento Social. A professora também aponta que eleitoras de baixa renda podem ter associado o discurso de Flávio sobre reduzir gastos públicos ao risco de cortes em serviços e benefícios. Mulheres são 54% dos evangélicos, conforme o IBGE.
Outro possível fator, segundo Thomé, foi a postura de Flávio nos debates do segundo turno. No encontro da Band, ele apareceu atrás de Lula e fez gestos e expressões de insatisfação; no debate da Globo, chamou o presidente de “nove dedos”, em referência à perda de um dedo de Lula quando trabalhava como metalúrgico. A pesquisadora considera que esse comportamento pode ter afastado eleitoras, que, em termos gerais, tendem a rejeitar manifestações agressivas. Ela também observa que a chapa masculina de Flávio com Alfredo Gaspar (PL-AL) pode não ter ajudado a campanha a se aproximar desse público.



