
A derrota eleitoral intensificou manifestações de retaliação política, com pedidos de demissão e boicotes a estabelecimentos. O MPT recebeu 2.177 denúncias de assédio eleitoral neste ano. (Foto: Instagram)
A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições repercutiu além da disputa política e chegou ao trabalho, ao comércio e à convivência social. Na última semana, políticos e influenciadores bolsonaristas defenderam demitir trabalhadores que votaram no petista, evitar contratar profissionais ligados ao partido e boicotar estabelecimentos comerciais.
A hostilidade também foi acompanhada de episódios de violência. Entre sábado, 24, véspera do segundo turno, e terça-feira, 27, 48 horas após o fim da votação, foram registradas dez mortes com motivação política no Brasil, segundo dados apresentados pelo governo federal em coletiva na quarta-feira, 28. O Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 2.177 denúncias de assédio eleitoral neste ano; mais de 530 foram feitas depois do resultado da eleição presidencial.
Em publicações nas redes, algumas orientações para romper relações profissionais com eleitores do PT foram explícitas. A vereadora de Londrina Jessica Ramos Moreno, conhecida como Jessicão (PL), pediu que empregadores demitissem funcionários petistas. A influenciadora Josiflora recomendou não ajudar petistas em situações cotidianas, como pedidos de emprego, favores ou atendimento em filas de regulação.
Na quinta-feira, 29, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) compartilhou o vídeo de uma empresária que disse ter perdido clientes após a eleição. Ao publicar a gravação, afirmou que as pessoas eram livres para deixar de frequentar o comércio dela e questionou a empresária sobre democracia. Para especialistas, porém, as manifestações não são apenas uma reação imediata à derrota: refletem anos de mobilização política, discursos hostis e estratégias digitais.
Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), avalia que a retaliação reproduz o confronto presente na campanha e nas redes. Para ele, a reação das lideranças à derrota influencia os apoiadores: quando um líder não aceita o resultado e demonstra hostilidade ao processo eleitoral, transmite essa postura a quem enfrenta a perda. A lógica de tratar adversários como inimigos, afirma, leva a disputa para outras áreas da vida e transforma o boicote em instrumento de retaliação.
O cientista político Rangel Ramiro Ramos, professor da Escola de Educação e Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), considera que as ações podem integrar uma mobilização digital organizada ao longo dos últimos anos. A circulação de mensagens parecidas e a atuação de influenciadores ajudam a coordenar manifestações que parecem espontâneas. Ramos cita o astroturfing, estratégia que simula apoio popular espontâneo para ampliar uma narrativa e estimular adesões. Ele afirma que pesquisas, inclusive as suas, identificam métodos e recursos discursivos usados para mobilizar o ativismo digital.
Dunker também aponta que o pertencimento político pode fazer a derrota parecer uma perda de espaço social. Quando a divergência é vista como se não houvesse lugar para todos, excluir o adversário pode ser apresentado como forma de recuperar esse pertencimento. Ramos ressalta que a identificação coletiva, sozinha, não explica as ações: ela pode ser mobilizada para buscar ou manter poder, mesmo em prejuízo da lei. Para ele, a eleição não criou essa dinâmica, mas tornou mais visível um processo construído por discursos políticos e estratégias digitais ao longo de mais de uma década.



