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quinta-feira, outubro 15, 2026

Como as escolas lidam com a polarização em sala de aula durante as eleições

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Estudantes participam de atividade com cadernos e materiais escolares, explorando diferentes ideias em sala de aula (Foto: Instagram)

A poucos dias de um dos pleitos mais aguardados do País, o clima de disputa eleitoral, que domina as redes sociais e as conversas em família, também toma conta das instituições de ensino. Divergências de natureza política, cultural, de gênero e racial já não se restringem a debates saudáveis; manifestam-se em conflitos nos pátios, nas salas de aula e até nos corredores reservados a professores. Especialistas alertam que a educação básica se depara com uma encruzilhada: silenciar o diálogo corre o risco de empobrecer o processo formativo, mas ignorar os conflitos pode transformar a escola em palco de hostilidades.

Para gestores de algumas das principais escolas de São Paulo, o desafio maior não é conter as discussões, mas convertê-las em instrumentos pedagógicos. Mário Fioranelli, diretor do Centro Educacional Pioneiro, explica que a instituição privilegia uma abordagem de pluralismo de ideias alicerçada nos direitos humanos. “Nosso objetivo é oferecer uma formação ampla, apresentando múltiplos pontos de vista para que o estudante construa, de modo crítico, seu posicionamento diante do mundo”, afirma. Ele ressalta ainda que certos princípios, como a proteção de minorias e o combate ao racismo, são inegociáveis e respaldados pela legislação.

No Colégio Equipe, o diretor Luis Marcio Barbosa defende que não se trata de harmonizar visões políticas ou religiosas, mas de reconhecer e valorizar as diferenças. Para ele, o letramento digital é peça-chave nesse contexto. “Debatemos os algoritmos das redes sociais e o impacto das bolhas digitais, que podem agravar preconceitos e práticas de cancelamento”, diz Barbosa. A partir daí, alunos, professores e famílias exploram as contradições históricas e científicas, usando o estudo como ferramenta para orientar escolhas conscientes.

A pressão sobre o corpo docente é outro aspecto preocupante. Muitos professores relatam medo de serem acusados de “doutrinação” ao tratar de sistema eleitoral, direitos constitucionais ou justiça social. Cláudia Tricate, diretora do Colégio Magno Mágico de Oz, conta que há pais que proíbem abordagens específicas. “A escola defende que o aluno participe de todas as discussões, pois precisa conhecer caminhos diversos antes de escolher o seu. Educadores têm convicções, mas devem garantir aos estudantes ferramentas para formar suas próprias opiniões”, destaca.

Levantamentos do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) apontam um descompasso: embora a maioria dos docentes diga integrar temáticas antirracistas e de inclusão em suas aulas, menos da metade dos alunos percebe esses debates de forma contínua, enquanto iniciativas contra machismo e homofobia permanecem em sua maioria pontuais. Em resposta, várias redes de ensino e colégios particulares estruturaram itinerários formativos centrados na Constituição, na cidadania e na educação midiática.

Para Daniel Helene, diretor pedagógico da Escola Vera Cruz, estabelecer limites claros — permitindo qualquer discussão que não viole a dignidade humana — possibilita tratar de diversidade sem tabu. “A escola é o lugar em que o mundo é colocado sobre a mesa para ser examinado”, afirma. No Colégio Miguel de Cervantes, Rudney Soares reforça essa proposta ao incluir simulações de votação, rodas de conversa e análise crítica de notícias falsas. A eleição de representantes de classe serve como laboratório democrático, ensinando jovens a apresentar propostas, articular campanhas e respeitar escolhas distintas das suas.

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