Um estudo publicado recentemente levantou uma hipótese curiosa sobre o comportamento dos mosquitos: em determinadas condições, os insetos podem aprender a associar o cheiro de repelentes à obtenção de alimento. A descoberta envolve o DEET, substância considerada uma das mais eficazes na prevenção de picadas e amplamente utilizada em produtos contra mosquitos transmissores de doenças.
O DEET (N,N-dietil-meta-toluamida) é recomendado por autoridades sanitárias em diversos países para proteção contra enfermidades como dengue, zika, malária e encefalite japonesa. No entanto, pesquisadores observaram que a experiência prévia dos insetos pode influenciar a forma como eles reagem ao composto químico.
Segundo os autores do estudo, o fenômeno seria semelhante ao famoso experimento conduzido pelo fisiologista russo Ivan Pavlov, que demonstrou a capacidade de animais associarem estímulos a recompensas.
“Durante muito tempo, acreditou-se que os repelentes funcionavam unicamente devido às suas propriedades químicas. No entanto, as nossas descobertas sugerem que a reação pode ser modificada pela experiência”, afirmou o pesquisador Claudio Lazzari, da Universidade de Tours.
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Os resultados foram divulgados no periódico científico Journal of Experimental Biology. Nos experimentos, os cientistas analisaram grupos de mosquitos submetidos a diferentes situações envolvendo sangue aquecido e exposição ao DEET.
Os testes mostraram que aproximadamente 60% dos insetos que conseguiram se alimentar enquanto estavam expostos ao repelente voltaram a demonstrar interesse pelo odor do DEET posteriormente. Entre os mosquitos que não passaram pela mesma experiência, a taxa ficou em torno de 17%.
Em outra etapa da pesquisa, quase 60% dos mosquitos previamente condicionados tentaram picar uma mão tratada com repelente. Já os insetos sem treinamento direcionaram suas tentativas para a mão que não continha o produto.
Apesar dos resultados, especialistas destacam que a descoberta não significa que os repelentes deixaram de funcionar. Os próprios autores enfatizam que o comportamento observado ocorreu em condições específicas de laboratório e não representa necessariamente o que acontece no ambiente natural.
“As pessoas precisam entender que o DEET não perde sua eficácia com o uso normal, mas apenas sob condições específicas de laboratório”, explicou Lazzari.
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A pesquisadora Nina Stanczyk, da ETH Zurique, avaliou que a capacidade de aprendizagem demonstrada pelos mosquitos é surpreendente, mas reforçou que o uso de repelentes continua sendo uma das principais formas de proteção contra doenças transmitidas por esses insetos.
Outros especialistas apontam que, no ambiente real, os mosquitos costumam entrar em contato com diferentes substâncias ao longo da vida, o que dificultaria a formação de uma associação duradoura entre repelentes e alimentação. Além disso, ainda não se sabe por quanto tempo essa memória comportamental poderia ser mantida pelos insetos.
Diante disso, a recomendação permanece a mesma: aplicar e reaplicar o repelente conforme as instruções do fabricante, especialmente em áreas com circulação de mosquitos transmissores de doenças.
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